terça-feira, 21 de julho de 2009

MILAGRES DA TECNOLOGIA !

Foi celebrado ontem o 40º aniversário dum grande evento que, inegavelmente representou um marco histórico: o Homem pisou o solo lunar pela 1 ª vez !
Os noticiários enalteciam, deslumbrados, as maravilhas da ciência e da técnica, sugerindo que o homem estará cada vez mais capaz de se aproximar da origem e do fim das coisas deste Mundo ! Lembrou-me idênticos devaneios a propósito do CERN, que iria, finalmente, explicar a formação do Universo ! Delírios !

O nefasto acidente do A330 veio evidenciar que uma atitude de um pouco de humildade, seria bem mais sensata.
A obra humana é sempre imperfeita e incompleta, e mesmo aos mais altos níveis da tecnologia se cometem erros impensáveis e inexplicáveis, quase infantis ! Este acidente vem revelar vários, de que distingo cinco:

1- O “tubo de Pitot” é o instrumento rudimentar com que se avaliam, tanto quanto possível, velocidades relativas de aeronaves (em relação ao ar), o usado desde os primórdios da aviação, dos tempos dos aviões a hélice, que não ultrapassavam os 2.000 m de altitude, em que a densidade do ar não é substancialmente diferente da do nível do mar. É, assim, o utilizado nas pequenas aeronaves ligeiras, que os amadores desportistas usam.
Havendo na actualidade tecnologias muito mais rigorosas e fiáveis, não me passava pela cabeça que equipamentos que transportam centenas de vidas, voando a altitudes da ordem dos 9.000 m, a velocidades enormes e em condições meteorológicas e de temperatura exterior (50º negativos !) tão gravosas, ainda usassem tais instrumentos ! Foi do que me apercebi nas primeiras noticias, facto confirmado por um amigo, ex-piloto da Força Aérea e ainda ao serviço da aviação comercial. Fiquei abismado !
Efectivamente, continua a ser o “sistema principal” que, embora dê uma informação incorrecta (a grandes altitudes a velocidade real é muito maior !), mas que vai satisfazendo os objectivos do piloto, de dar a percepção da “sustentabilidade” da aeronave sendo certo, ainda, que a tecnologia usada nos grandes aviões comerciais é muito mais evoluída que a usada nos aviões ligeiros. Porém, o princípio é o mesmo !
Se não houvesse alternativa (tomara o Vasco da Gama ter podido dispor de “tubos Venturi”, espécie de equivalente hidráulico dos “tubos de Pitot” !), poderia ser um risco assumido, o que seria já de si discutível; mas agora, que se avalia com precisão, graças à tecnologia GPS, a velocidade duma viatura na estrada, ou de qualquer uma embarcação no oceano, afigura-se-me impensável induzir os pilotos em erros grosseiros e, com isso, arriscar centenas de vidas, avaliando a velocidade do avião com tais instrumentos, já de si de precisão duvidosa e que, até podem congelar ou entupir com gelo ! O meu amigo considera altamente improvável que tenha sido essa a causa do acidente; o facto é que foi admitida logo nas primeiras notícias.
A questão não seria, portanto, se os ditos tubos deveriam, ou não, ter sido substituídos por outros, de outro fabricante, como noticio a Comunicação Social; a questão será se deviam ainda ser usados (a não ser como meio auxiliar, de reserva) e substituídos por tecnologia mais fiável, afinal já existente !

2- Ficamos também a saber que nas “comunicações”, com a tecnologia utilizada, há “zonas de sombra”, ou seja, há largos espaços em que o piloto vem a “falar sozinho”, incomunicável, num tempo e num espaço em que se pode deparar com quaisquer imprevistos de toda a ordem ! Nessas zonas apenas se mantêm as comunicações HF (incómodas e com ruídos), que permitem as aeronaves comunicar entre si.
Seria, também, um risco assumido, se não houvesse alternativa ! Mas, quando qualquer cidadão se diverte a comunicar para qualquer parte do Mundo, mesmo para os antípodas, com o mais pequeno “computador portátil”, via Internet, com som e imagem (ex: Skype), como de admite que comunicações de tão grande responsabilidade não usem tais tecnologias ? Sendo as comunicações e via satélite ainda falíveis, como todos sabemos, poderiam manter os meios tradicionais como “sistema de reserva”!
Não dá para acreditar, mas,…é assim !

3- Mais ainda: tanto quanto percebi, há rotas próximas de certos Continentes, em que nas “torres de controlo” os “controladores aéreos” fecham o estaminé a partir do “horário normal de laboração” ou não estão habilitados a fornecer a informação conveniente (e previsível) para uma navegação mais segura, apenas preocupados com a contabilização dos voos para cobrar as taxas ! Parece ser o que os preocupa ! A ser verdade, o que até me custa a crer, tal ocorrerá precisamente no período de tráfego mais intenso, a que recorrem as Transportadoras, justamente por razões de economia !
A confirmar-se tal facto, creio que se impõe, por razões obvias, a criação de condições para reverter tal situação. Não se afigura muito difícil; haja “vontade política” !

4- Também fiquei estupefacto, ao ouvir as primeiras notícias, com a informação de que o acidente terá ocorrido numa zona de “ocorrência normal” de condições meteorológicas muito gravosas, justamente onde se formam as grandes tempestades tropicais ! Porque razão se não deviam as rotas duma zona com forte probabilidade de tempestades extremas ? Será, também, por razões de poupança ?
Diria a minha Avó: “vai-te lucro, que me dás perda “!!
O meu amigo diz, no entanto, que o equipamento de radar disponível detecta, de forma eficiente, todas as ocorrências a tempo de serem tomadas as providencias necessárias, desviando o rumo para o lado mais conveniente e que tais borrascas se não formam de forma súbita e imprevisível; assim sendo, a procedimento normal é ir “a direito”, pelo caminho mais curto,
Parece-me, portanto uma história mal contada, empolada pelo sensacionalismo da Comunicação Social !

5- Outra questão que em deixa perplexo é a das “caixas negras”, de cuja descoberta depende, geralmente, a possibilidade de se reconstituir as causas do acidente e a história do que se tenha passado. Como é possível que tão preciosa informação fique armazenada num qualquer “disco”, dentro duma qualquer caixota (que, ainda por cima, nem é negra !), com uma resistência limitada, com uma capacidade de emitir curta, e que pode ficar refugiada num sítio inacessível ? Tal informação, que será imensa se acumulada, não poderia estar a ser emitida “on line” para um computador potente instalado na sede da Transportadora, ou do Fabricante, ou numa qualquer Entidade de Controlo, oficial e idónea ? Com as tecnologias actuais, nem parece ser incomportável em termos de custo e, globalmente, bem mais barato que mandar uma “missão” a Marte !
Tal permitiria que tal informação estivesse imediatamente disponível, em qualquer emergência, sem tanto espalhafato, as mais das vezes, inútil e inconsequente. Nesta matéria parece que apenas se levantaria a questão da confidencialidade das comunicações e do seu eventual uso indevido !

Enfim ! Não pretendo depreciar ou minimizar as maravilhas da técnica e dos progressos ocorridos, especialmente de há 40 anos para cá. Eu próprio me entusiasmo com as novas tecnologias, das quais me vou procurando manter ao corrente, dentro do desejável.
Desejo, por um lado, alertar para estas incongruências inaceitáveis e sem ter a pretensão de esgotar o tema, mas acima de tudo, apelar para o bom-senso de quem se deslumbra com estes “milagres”, ignorando que o grande milagre é o da harmonia e beleza da “criação”, e em particular, o da “vida” e, ainda, o de ter sido o “homem” concebido com a capacidade de participar na criação, criando, embora com muitas limitações e erros. É o única ser da criação com tal capacidade.
Ter a humildade de perceber que o homem é limitado, e que a sua obra material é finita e efémera e, por isso, sempre susceptível de ser superada e aperfeiçoada, ajuda a aceitar o erro, sem crítica destrutiva e a disponibilizar-se para colaborar no passo seguinte, sempre na mira do “absoluto”.


MG 21.Julho.2009