Referiu o SR. Presidente da República a conveniência em ser analisado o facto de haver, actualmente, uma discrepância difícil de justificar entre os vencimentos de “gestores” de empresas privadas e os do restante pessoal.
Relembra-se que há pouco tempo o Governo levantou idêntica questão, e bem, em relação aos “gestores públicos”, não indo, porém, à essência da questão e tendo-se limitado a tomar medidas efémeras para travar a “voragem”.
Não me surpreende, portanto, esta referência, sendo este um assunto que, de longa data, tenho vindo a comentar nos meus círculos de opinião; só me surpreende o só ser levantado agora. Mas mais me surpreende a reacção veiculada através da “comunicação social”, tendo ouvido classificar esta intervenção como um “atrevimento” e uma opinião controversa; ouvi mesmo quem dissesse que este assunto não é importante, que não é “o problema” e que não será por aí que se resolvem os problemas do País !
Não estou mais em desacordo: sendo verdade que a crise se não resolve apenas abordando esta questão, a sua “solução de fundo” muito pode contribuir para melhorar as condições de vida da maioria dos Portugueses: a questão de fundo é uma questão de cultura e de mentalidades.
Sempre que referia este tema recordava que em 1975, na empresa onde trabalhava (então já pública, e uma das maiores do País e cotada como uma das detentoras de técnica altamente qualificada, a nível internacional) as “estruturas representativas dos trabalhadores” expuseram os vencimentos de todo o pessoal; discordando, embora, da medida que considerava demagógica e inconsequente (como se verificou !), não resisti a dar uma olhadela, apenas para ter uma ideia de quanto ganhava o Director Geral, sendo eu um jovem Engenheiro, quase em princípio de carreira e, ainda, sem quaisquer responsabilidades de chefia. Constatei, com alguma surpresa, que o dito Senhor (que o era com “S”, quer como técnico, como gestor e como pessoa), com a responsabilidade máxima, a nível nacional, apenas ganhava (com todas as “alcavalas”) cerca do dobro do meu vencimento, tendo comentado com o colega que me acompanhava, que nem era muito !
Na altura, sendo uma das empresas que herdara, das que a precederam, a tradição de ser das que melhor pagava no País (eu ganhava já o equivalente a um Director, na “função pública”, o chamado “leque salarial” (desde o mais modesto, ao mais qualificado) era de 1/5, sensivelmente.
Um quadro superior que conhecia pessoalmente, e ao mais alto nível da “função pública” (equivalente a Director Geral) tinha um vencimento pouco diferente do meu e, como “mordomias”, direito a um carro (utilitário) apenas para serviço, como era necessário e plenamente justificável ! Eu ganhava, então, o suficiente para uma vida desafogada de “chefe de Família” da chamada “classe média/alta”, com 3 ou 4 filhos.
Era, à época, impensável que alguém, a trabalhar honestamente, pudesse auferir rendimentos muito diferentes do meu Director Geral; o vencimento de Ministro era uma referência inatingível ! Havia quem tivesse rendimentos superiores, mas decorrentes da sua actividade empresarial, remunerando o risco dos capitais investidos.
Recordo, também, que já em 1995, qualquer Director, na dita empresa e com responsabilidades sectoriais limitadas, auferia já valores elevados (confidenciais e fora das “tabelas salariais”) e com regalias adicionais (carro próprio, de gama alta, oferecido pela empresa, combustível que dava para os carros todos da Família, “cartão dourado”, etc. ). Parece que as “conquistas dos trabalhadores” apenas beneficiaram, afinal, os “gestores de topo”, já que o nível geral de vencimentos da “tabela” se tinha degradado sensivelmente.
Friso que se não tratava de entidades privadas, mas de “empresas públicas”, do Estado, nos mais diversos sectores da economia.
Recentemente ficou o País estupefacto com a coragem de alguém que, ao fim de poucos meses como Administrador duma entidade bem conhecida, se reformou com uma pensão escandalosa !
Já na época comecei a ficar sensibilizado para a questão agora levantada, ao tomar conhecimento dos “faraónicos” vencimentos de futebolistas, treinadores, “animadores” (de gosto e qualidade muito discutível) e locutores das TVs (públicas e privadas - como se devem revolver na tumba nomes como os do Mensurado, Caetano, Henrique Mendes, para já nem falar em Fernando Peça !), etc., cujo mérito me não parecia justificar, minimamente, tal estatuto; o futebol era “desporto” e, o Sporting, “leão”, no tempo dos “5 violinos”, que se viviam bem (não sei), não eram motivo de escândalo !
Agora, levantada a questão, fico siderado ao saber-se, pelos noticiários das TVs, que Portugal está na vanguarda do desaforo: há quem ganhe 40 vezes, 60 vezes e, até 200 vezes o salário dos seus trabalhadores, sendo a “média nacional” de 30 vezes !!
Considerando como razoável um salário (actual) de 3.000,00 €/m, equivalente a 600 c./m ou seja, a 8.400 c./ano, não posso estar mais de acordo como Sr. Presidente quando se sabe que há quem ganhe 100 000,00 €/m (cerca de 20.000 c./m, o equivalente ao preço de uma habitação já de qualidade acima da média da população !).
Parece-me, efectivamente, muito difícil de justificar ! Perdeu-se a vergonha !
E isto não é problema ?
Há quem defenda que nas empresas privadas ninguém tem nada com isso: cada um é livre de pagar o que quer e que é diferente das entidades do Estado. Não é verdade: por um lado, se a empresa produz “pós pr’às pulgas”, o preço tem que reflectir os custos e, portanto, não é o patrão que paga, mas sim o consumidor que vê, assim os preços inflacionados; por outro lado, tal prática tem um efeito indutor na “administração pública” que não consegue resistir à tentação (e necessidade) de oferecer condições parecidas para aliciar quadros qualificados.
Portanto, isto é um problema e se não é “o problema”, é um seu sintoma inquietante.
O problema é uma questão de cultura e mentalidade.
Numa economia saudável e sustentável, o cidadão deveria ser habituado a discernir o essencial do supérfluo. Quem não está interessado nesta “conversa” argumenta que o que é essencial para uns, poderá ser supérfluo para outros e que é difícil definir a fronteira; é verdade, mas se há uma franja de indefinição, qualquer pessoa de bom-senso tem consciência do que é aceitável, razoável e justificável, e do que é luxo e extravagancia ! A noção de justiça começa precisamente aí !
Hoje, numa sociedade materialista e consumista, muita gente se arroga o “direito” de gerir os recursos a seu “bel-prazer”, fazendo uma vida faustosa. Basta ver, no “parque automóvel” deste pobre País, a percentagem da carros de “topo de gama”; ouviu-se nos noticiários que nesta “quadra (dita) Natalícia” as viagens para os destinos mais exóticos estavam esgotadas !
Corresponde este “estilo de vida” a um efectivo progresso ? Sê-lo-ia se a subida do “nível de vida”fosse equilibrada, dentro de critérios de equidade. É o que defende a “doutrina social da Igreja”; há, porém, muita gente que se diz católica e, até, de esquerda, a achar isto muito natural e que,… não é problema !
E este é o problema: uma questão de mentalidades.
Quando se vive no “culto do ter”, o que interessa é ter e seja como for: vale tudo ! Ou não é o que se verifica ? Não é esta a origem de tanta “economia paralela”, da corrupção, do “trafico de influencias”,… das várias formas de violência ? O que importa é “viver à grande”, custe o que custar, sofra quem sofrer, atropele-se o que for !
Não defendi nunca que sejamos todos iguais. Concordei sempre que o mérito, o empenho e dedicação, a competência, devem ser estimulados e recompensados, não bastando uma “palmadinha nas costas”. Mas,… há limites ! Em 1975 o meu Director Geral ganhava 2 vezes o que eu, ainda jovem, auferia como salário e o “leque salarial” era de 1/5 !
Hoje qualquer jovem licenciado (e sabe-se como !) considera natural iniciar-se com um “estilo de vida” que não era, em 1975 ambicionado por um “sénior” !
O problema é uma questão de “filosofia de vida”; é uma questão cultural.
É um grave problema ! Grave e difícil.
Ficou provado que as “lutas” dos “ismos” nada resolveram !
Urge, portanto, uma verdadeira revolução de mentalidades.
MG 07.01.2008
quinta-feira, 29 de maio de 2008
sábado, 24 de maio de 2008
Que praxe é esta?
Fui, uma vez mais, surpreendido com a notícia, em jornal diário, de mais um brutal abuso ocorrido com o pretexto da “festa” duma qualquer Queima das Fitas, numa qualquer Academia em Portugal: uma jovem foi violada !
Já anteriormente me tinha espantado o revelado na imprensa sobre graves desmandos e abusos ocorridos também numa “festa académica”, na chamada “recepção aos caloiros”.
Tais lamentáveis incidentes ocorrem, portanto, em manifestações académicas, praticadas por “estudantes universitários”, por futuros “doutores”, ou seja, a “elite” de que irão sair os futuros educadores, pais e “encarregados de educação”, professores, chefes, dirigentes de empresas e, mesmo, da Pátria ! Espanta-se o Sr. Presidente da República com a indiferença e ignorância das novas gerações em relação à política ! Não será isso mais um dos reflexos da “cultura” que se vive e que se cultiva nas nossas Universidades ?
Quer isto dizer que a praxe, em si, seja má ou indesejável ? Certamente que não; depende do uso que dela se faz ! A praxe, nas suas várias formas, existirá, certamente, desde que há associações humanas, ou seja, provavelmente desde que o bicho-homem é gente, das mais variadas formas e com os mais diversos fins: qualquer “grupo de amigos” ou “família” tem as suas regras , valores e tradições e só se integra quem corresponda ao “perfil” exigido e se comprometa a respeitar a sua “cultura específica” e a “jogar o jogo”. Assim é com a Maçonaria (em que o “neófito” passa por um complexo processo de “iniciação” até ao ritual da integração), como em qualquer Igreja (onde o “catecúmeno” deve ser sujeito a uma formação que o habilite a receber o “baptismo”), havendo sempre “padrinhos”, espécie de “fiadores” que asseguram a idoneidade do candidato e a sua formação para que dêem garantias de que o candidato irá ser um membro “de pleno direito”. Assim é em qualquer clube, com alguma credibilidade, onde nenhum sócio é admitido sem a “proposta” ser avalisada por um proponente considerado idóneo. Todas as entidades tem, geralmente, as suas praxes.
Assim foi nos meios académicos desde os seus primórdios, sendo sobejamente conhecidas as divertidas histórias, repletas da chamada “piada académica”, especialmente das tradições das “repúblicas” de Coimbra, onde se instalou a mais antiga Universidade Portuguesa. Como não frequentei esta academia (não fugi ao “terror do Beires”, na sua Mecânica Racional !), apenas me poderei referir à minha experiencia no Orfeão Universitário do Porto (OUP), único organismo que, ao tempo, tinha e mantinha “tradição académica”, no Porto. Nessa época o uso do traja académico (“capa e batina”, à semelhança do traje coimbrão) quase se restringia apenas aos seus elementos, que o usavam por imperativo da sua participação nas actividades do OUP.
Como curiosidade, desconhecida da maioria, regista-se que foi o OUP o primeiro organismo cultural universitário a integrar raparigas, tendo sido então, pelos anos 50, inventado o “traje académico feminino”, tal como ainda hoje +e usado; ainda é viva, e de boa saúde, uma das orfeonistas de então !
O que é oportuno e importante referir, a propósito da questão levantada, é aquilo em que consistia a praxe académica de então, quais as suas fundamentações e objectivos. A cerimónia marcante era o “baptismo do caloiro”: o orfeonista era considerado caloiro até ao “baptismo”, momento a partir do qual passava à excelsa categoria de “doutor” ! O dito baptismo era a “prova de fogo” em que o candidato tinha que evidenciar (de forma personalizada e mão em “manada”) as suas próprias qualidades (e habilidades) para integrar aquela comunidade: a sua arte, sentido de humor, simpatia, desembaraço, etc. Era um “exame” em que a “besta” (2 furos abaixo de cão e 4 abaixo de polícia !) era julgado por um “jurado de veteranos” sisudos e severos, sendo a “faena” conduzida por um “padrinho” que tinha que ter imaginação (engenho e arte) e ironia para prescrutar as habilidades e fraquezas do “animal”; a encenação decorria em ambiente solene, pesado, quase soturno, tão aterrador quanto as circunstancias o permitiam. No final, quando os “doutores” entendiam ser suficiente, o mais antigo, que presidia, baptizando o “debutante” com um nome, sempre arrevesado e com alguma referencia irónica ao perfil do novo “doutor”, e geralmente em “latinórium”, nome esse sugerido pelo padrinho e aprovado após acesa controvérsia ! Fui baptizado numa digressão do OUP a Trás-os-Montes, num sala do Clube de Bragança, adaptada para o cerimonial, tendo sido meu padrinho o decano da Academia Portuense, o meu amigo Dr. Flávio Serzedelo, que hoje, com mais de 80 anos, continua a saber os nomes e datas de nascimento de todos os seus afilhados (largas dezenas), o que é ilucidativo do relevo que era então dado ao facto !
O que importa realçar é que tal ritual, tendo o objectivo de explorar e realçar as características e capacidades da personalidade do caloiro, decorria num ambiente de civilizada elevação intelectual (com alguma brejeirisse pelo meio !), explorando a piada académica com humor sarcástico, desafiando a imaginação quer do padrinho, quer do caloiro. Nada de grave ou inconveniente ocorria, sendo certo que tal operava, frequentemente, uma mudança de comportamento e atitude dos baptizados, que tinham, assim, oportunidade de revelar as suas capacidades e talentos até aí desapercebidos e que iriam ser, posteriormente, explorados na sua passagem pelo OUP. Ficava sempre um laço especial de amizade ligando o neófito e o seu padrinho ! Era, portanto, uma prática, útil, interessante e pedagógica. Tinha classe !
Não vale a pena alongar-nos a caricaturar a praxe a que se assiste na actualidade e de que resultam os lamentáveis abusos de que se tomou conhecimento. Por falta de nível e cultura, afloram os instintos primários de quem detém, despoticamente, um “poder efémero”; mete dó ver a “carneirada”, em manada, numa atitude de humilhante subserviência, portando-se com animais amestrados, conduzidos pelo “doutor” (estagiário de ditador !), sem qualquer graça ou imaginação ! Só me espanta que na era das “liberdades e dos direitos”, seja aceite de forma acrítica esta nova imagem da escravatura; afinal parece que a prepotência e a subserviência coexistem caracterizando, de forma endógena, a índole de muita gente, dita moderna ! É moda ! É praxe ! Vale tudo !
Os excessos, de todo injustificados, reveladores de ignorância e estupidez, devem ser claramente reprovados e reprimidos pelas Autoridades académicas, afastando do seu seio quem desta forma revela total incapacidade para pertencer a esta comunidade de elites intelectuais e sociais; os crimes deverão ser punidos pelas entidades Judiciais de forma clara e exemplar. Só assim terão estas notícias alguma utilidade pedagógica: dar consciência e fazer perceber a razão de ser e utilidade das praxes e acabar com esta brutalidade primária.
Já anteriormente me tinha espantado o revelado na imprensa sobre graves desmandos e abusos ocorridos também numa “festa académica”, na chamada “recepção aos caloiros”.
Tais lamentáveis incidentes ocorrem, portanto, em manifestações académicas, praticadas por “estudantes universitários”, por futuros “doutores”, ou seja, a “elite” de que irão sair os futuros educadores, pais e “encarregados de educação”, professores, chefes, dirigentes de empresas e, mesmo, da Pátria ! Espanta-se o Sr. Presidente da República com a indiferença e ignorância das novas gerações em relação à política ! Não será isso mais um dos reflexos da “cultura” que se vive e que se cultiva nas nossas Universidades ?
Quer isto dizer que a praxe, em si, seja má ou indesejável ? Certamente que não; depende do uso que dela se faz ! A praxe, nas suas várias formas, existirá, certamente, desde que há associações humanas, ou seja, provavelmente desde que o bicho-homem é gente, das mais variadas formas e com os mais diversos fins: qualquer “grupo de amigos” ou “família” tem as suas regras , valores e tradições e só se integra quem corresponda ao “perfil” exigido e se comprometa a respeitar a sua “cultura específica” e a “jogar o jogo”. Assim é com a Maçonaria (em que o “neófito” passa por um complexo processo de “iniciação” até ao ritual da integração), como em qualquer Igreja (onde o “catecúmeno” deve ser sujeito a uma formação que o habilite a receber o “baptismo”), havendo sempre “padrinhos”, espécie de “fiadores” que asseguram a idoneidade do candidato e a sua formação para que dêem garantias de que o candidato irá ser um membro “de pleno direito”. Assim é em qualquer clube, com alguma credibilidade, onde nenhum sócio é admitido sem a “proposta” ser avalisada por um proponente considerado idóneo. Todas as entidades tem, geralmente, as suas praxes.
Assim foi nos meios académicos desde os seus primórdios, sendo sobejamente conhecidas as divertidas histórias, repletas da chamada “piada académica”, especialmente das tradições das “repúblicas” de Coimbra, onde se instalou a mais antiga Universidade Portuguesa. Como não frequentei esta academia (não fugi ao “terror do Beires”, na sua Mecânica Racional !), apenas me poderei referir à minha experiencia no Orfeão Universitário do Porto (OUP), único organismo que, ao tempo, tinha e mantinha “tradição académica”, no Porto. Nessa época o uso do traja académico (“capa e batina”, à semelhança do traje coimbrão) quase se restringia apenas aos seus elementos, que o usavam por imperativo da sua participação nas actividades do OUP.
Como curiosidade, desconhecida da maioria, regista-se que foi o OUP o primeiro organismo cultural universitário a integrar raparigas, tendo sido então, pelos anos 50, inventado o “traje académico feminino”, tal como ainda hoje +e usado; ainda é viva, e de boa saúde, uma das orfeonistas de então !
O que é oportuno e importante referir, a propósito da questão levantada, é aquilo em que consistia a praxe académica de então, quais as suas fundamentações e objectivos. A cerimónia marcante era o “baptismo do caloiro”: o orfeonista era considerado caloiro até ao “baptismo”, momento a partir do qual passava à excelsa categoria de “doutor” ! O dito baptismo era a “prova de fogo” em que o candidato tinha que evidenciar (de forma personalizada e mão em “manada”) as suas próprias qualidades (e habilidades) para integrar aquela comunidade: a sua arte, sentido de humor, simpatia, desembaraço, etc. Era um “exame” em que a “besta” (2 furos abaixo de cão e 4 abaixo de polícia !) era julgado por um “jurado de veteranos” sisudos e severos, sendo a “faena” conduzida por um “padrinho” que tinha que ter imaginação (engenho e arte) e ironia para prescrutar as habilidades e fraquezas do “animal”; a encenação decorria em ambiente solene, pesado, quase soturno, tão aterrador quanto as circunstancias o permitiam. No final, quando os “doutores” entendiam ser suficiente, o mais antigo, que presidia, baptizando o “debutante” com um nome, sempre arrevesado e com alguma referencia irónica ao perfil do novo “doutor”, e geralmente em “latinórium”, nome esse sugerido pelo padrinho e aprovado após acesa controvérsia ! Fui baptizado numa digressão do OUP a Trás-os-Montes, num sala do Clube de Bragança, adaptada para o cerimonial, tendo sido meu padrinho o decano da Academia Portuense, o meu amigo Dr. Flávio Serzedelo, que hoje, com mais de 80 anos, continua a saber os nomes e datas de nascimento de todos os seus afilhados (largas dezenas), o que é ilucidativo do relevo que era então dado ao facto !
O que importa realçar é que tal ritual, tendo o objectivo de explorar e realçar as características e capacidades da personalidade do caloiro, decorria num ambiente de civilizada elevação intelectual (com alguma brejeirisse pelo meio !), explorando a piada académica com humor sarcástico, desafiando a imaginação quer do padrinho, quer do caloiro. Nada de grave ou inconveniente ocorria, sendo certo que tal operava, frequentemente, uma mudança de comportamento e atitude dos baptizados, que tinham, assim, oportunidade de revelar as suas capacidades e talentos até aí desapercebidos e que iriam ser, posteriormente, explorados na sua passagem pelo OUP. Ficava sempre um laço especial de amizade ligando o neófito e o seu padrinho ! Era, portanto, uma prática, útil, interessante e pedagógica. Tinha classe !
Não vale a pena alongar-nos a caricaturar a praxe a que se assiste na actualidade e de que resultam os lamentáveis abusos de que se tomou conhecimento. Por falta de nível e cultura, afloram os instintos primários de quem detém, despoticamente, um “poder efémero”; mete dó ver a “carneirada”, em manada, numa atitude de humilhante subserviência, portando-se com animais amestrados, conduzidos pelo “doutor” (estagiário de ditador !), sem qualquer graça ou imaginação ! Só me espanta que na era das “liberdades e dos direitos”, seja aceite de forma acrítica esta nova imagem da escravatura; afinal parece que a prepotência e a subserviência coexistem caracterizando, de forma endógena, a índole de muita gente, dita moderna ! É moda ! É praxe ! Vale tudo !
Os excessos, de todo injustificados, reveladores de ignorância e estupidez, devem ser claramente reprovados e reprimidos pelas Autoridades académicas, afastando do seu seio quem desta forma revela total incapacidade para pertencer a esta comunidade de elites intelectuais e sociais; os crimes deverão ser punidos pelas entidades Judiciais de forma clara e exemplar. Só assim terão estas notícias alguma utilidade pedagógica: dar consciência e fazer perceber a razão de ser e utilidade das praxes e acabar com esta brutalidade primária.
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