terça-feira, 28 de outubro de 2008

O CERNE DA QUESTÃO, ou...

… a questão do CERN, como foi baptizada a máquina que, dizem, vai mesmo, desta vez, explicar a “origem do universo” !
Não consegui deixar de ficar incomodado, mesmo irritado, com a “euforia laicista” duma apresentadora duma TV que ontem, num noticiário, o anunciava entusiasticamente, à semelhança do que fizera já há algum tempo, quando o dito equipamento foi inaugurado a 1ª vez e posto a funcionar: ia ser possível fazer a reconstituição do “big bang” e, assim, demonstrar, à evidencia, que tal seria a verdadeira explicação da constituição do Mundo, remetendo para as calendas as fantasias bíblicas; sempre é desta vez (digo eu) que “Deus vai com as trochas”: a ciência vai mesmo explicar tudo !
O entusiasmo e convicção então revelados foram tais que levantaram polémica, provocando a promoção de debates interessantes, envolvendo cientistas (qualificados), filósofos e teólogos. Do que vi, pareceu-me ter podido concluir que tal evento científico teria sido útil para a cultura: ficava-se a perceber, para quem não tivesse pensado nisso, que a ciência trata do mundo físico, material, nada colidindo o seu progresso com o domínio da teologia que os tais cientistas, mesmo os que se declaravam “não crentes” respeitam como filosofia sobre o sobre-natural e meta-físico.

Na verdade, parecia-me ter resultado evidente que a ciência nada explica, mas apenas constata; apetrechados com equipamentos cada vez mais poderosos e sofisticados e dispondo de linguagens matemáticas cada vez mais elaboradas, os cientistas descobrem mundos novos, estabelecem correlações e constatam as regras (leis) porque se rege o funcionamento dos sistemas, mas,…há sempre uma “causa primeira” (ou última, nalguns casos) onde não chegarão nunca. Há pouco tempo ouvi, num doutoramento “honoris causa” o doutorando, ilustre intelectual, artista e cientista (também astrónomo) proferir uma frase, que logo registei por considerar corresponder à atitude de humildade que deve caracterizar o cientista sério:
…” quanto mais dizem que sabem, menos entendem”… !!
Mesmo que o “universo que se conhece” (o chamado “universo tangível”, com os equipamentos de que se dispõe na actualidade) resultasse duma eventual colisão de 2 fotões (super poderosos, com uma concentração enorme de energia), esse não teria sido o princípio de tudo ! Os ditos fotões, ou o que fosse, teriam vindo de algum sítio, de outro universo vizinho, e há algum tempo antes ! Ou seja, já existiam antes do tal princípio, o que evidencia a falta de lógica racional de tal hipótese.
E o tal de “big bang”, que tanto defendem os adeptos do “cientismo” e que se ensina nos manuais das nossa escolas (oficiais !) como sendo “a explicação” da origem do mundo ?! Li num desses manuais, com grande espanto, que a tal “esfera original” seria da dimensão duma bola de ténis ! Que espantoso rigor ! É isto que se ensina nas nossa escolas laicas ! A questão é a mesma: donde veio a bola e desde quando existia ? Como se chamaria o espaço (infinito !) para além da bola ?

Nada custa admitir que a nossa galáxia, ou o conjunto das galáxias que se conhecem, tenham resultado duma explosão qualquer duma qualquer coisa (que não, provavelmente, do tamanho duma bolinha de ténis !); não me perturba, sequer, admitir que se constate agora que as estrelas que se vislumbram com os actuais equipamentos estejam, afinal, em movimento relativo. Até aceito facilmente que o nosso “universo tangível” esteja, como dizem, em expansão. Mas, se se expande, aumenta de volume, indo ocupar espaço adjacente, de outros tantos universos. E o tal universo não se poderá confinar ao que se conhece já, pois então iria crescendo com o avanço da tecnologia: começara por ser o que se alcançava a “olho nu”, aumentando a dimensão com a invenção das lunetas, mais ainda com os telescópios ópticos, ainda mais, com os actuais e os futuros ! E nós seríamos o “centro” desse tal universo, esse mesmo variável se nos deslocamos para a Lua ou para Marte, ou simplesmente, dumas coordenadas para outras !
Numa conversa ocasional, este Verão, com astrónomos duma Universidade de Lisboa, provoquei o debate, para animar a conversa, tendo sido considerado que a admitir o “big bang” (à falta de melhor explicação, como foi dito) o mesmo se reportaria à origem do tal “universo tangível”, o que nos é possível, até agora, conhecer; o resto, cientificamente, é uma incógnita.

“ A César, o que é de César e… a Deus, o que é de Deus” !
Não estou nada agarrado à convicção, defendida pelos “criacionistas” radicais, que Deus, enfastiado de nada fazer, se lembrou de criar o firmamento numa 2ª feira, o mar na 3ª, etc.,…tendo instaurado então o “fim de semana à Inglesa” ! Tão pouco que tenha criado um tal de Adão dum pouco de barro e, ainda (imagine-se) uma tal de Eva, duma costela sua ! Só quem tenha uma cultura que não ultrapasse um lamentável “infantilismo religioso” usa esta descrição como argumento para desacreditar a mensagem bíblica, adjectivando esta narrativa como irracional; qualquer intelectual sério, crente ou agnóstico, percebe que, na sua linguagem simbólica e figurada, a mensagem do Génesis é que foi Deus quem criou o Mundo e tudo o que o habita; ponto final ! Para quem tem fé e acredita na existência de uma “outra vida, num outro “mundo imaterial”, tudo faz sentido, racionalmente; logicamente tal é suficiente, sem mais explicações inúteis e desnecessárias; quem não tenha tal convicção, que arranje forma de sair desse “beco sem saída”!

Tal conclusão pareceu-me ter ficado evidente nos debates a que assisti, ficando na convicção de que tal valera a pena, aquando da tal inauguração do tal de CERN; afinal não ! Nesta 2ª inauguração (oficial e com “pompa e circunstancia”, mesmo com o equipamento inoperacional, por avaria !!) a “comunicação social”, que parece ter memória curta ou selectiva, tudo esqueceu, voltando “à estaca zero”. Será mesmo ignorância e infantilismo, ou será que lhes dava jeito “acabar com Deus”, para quem o mesmo parece tornar-se incómodo ?
A aceitação da tal “outra vida” num “outro mundo” obrigaria a mudar muitas mentalidades e muitos comportamentos e isso parece incomodar ou ser inconveniente para muita gente.
Pessoalmente, lamento !

MG 23.10.2008

TRAPALHADA (política) NACIONAL

Acabo de ficar profundamente abalado nas minhas convicções: considerando-me, desde sempre (ainda estudante, ao despertar para a “coisa pública”), adepto e defensor da “democracia Cristã” e, consequentemente, situado no chamado “centro-direita” do espectro político português, acabo de constatar que sou, de facto, “social-democrata” (embora só, ligeiramente !) !
Tal conclusão resulta das respostas que espontaneamente dei numa espécie de inquérito/teste que recebi num mail sobre o “perfil político” de cada um trazendo, em anexo uma série de quadros sobre o “panorama político” nacional e internacional; muito interessante e pedagógico, bem elaborado e fundamentado. Vale a pena analisar e seria interessante divulgar e avaliar a “competência política” de cada eleitor !
Creio que o resultado seria uma boa surpresa para a maioria, vindo confirmar a minha percepção, de longa data, sobre a realidade nacional, que considero ser a causa fundamental do atávico “embaraço político” das “lusas gentes”.

Há muito que defendo que os nomes dos maiores partidos existentes não correspondem à realidade ideológica dos seus militantes e simpatizantes, desviando o “centro de gravidade” do espectro, distorcendo o panorama global e falseando a interpretação dos resultados eleitorais. Tal parece ter resultado, por um lado, duma enorme falta de cultura política e, por outro, de um certo “oportunismo à portuguesa” !
Segundo o que se diz, existem 2 grandes partidos com vocação de alternância de poder, considerando o senso comum um de “centro-direita” (o PSD) e o outro (o PS) de centro-esquerda, sendo o CDS(PP) conotado com a “direita liberal”, simétrico do comunista (PCP). Está, assim, colocado o “centro” entre o PS e o PSD, havendo quem sugira a sua fusão (face à confusão das suas práticas políticas) para constituir o “bloco central”. Entretanto vai havendo uma franja de indecisos (inocentes) que balança entre os dois, proporcionando uma alternância no poder, ajustada conforme as circunstancias e a aparência de conveniência. Esta realidade dá uma imagem completamente distorcida do espectro ideológico do nosso eleitorado, conforme se comprova na análise acima referida.

Tal resultou logo com a formação, a seguir ao 25 de Abril, dos partido existentes e a eliminação de partidos mais radicais de direita que teriam o mesmo direito de existir que os radicais de esquerda (esquerda do caviar!).
De facto, vimos instalar-se no PSD, (inicialmente baptizado de PPD) a grande maioria da gente moderada (grande parte de formação “democrata-cristã”) que considerou arriscado ser conotado com a direita e “politicamente correcto” dar, estrategicamente, um arzinho de esquerda ! Resultou que o PSD aglutinou militantes (e simpatizantes) abrangendo um leque ideológico enorme e, até contraditório, desde os que são efectivamente (e convictamente) defensores da “social-democracia”, até aos que lá se encostaram sendo, realmente, ideologicamente de “centro direita”, resultando uma confusão de “tendências” incoerentes e inconsistentes (se não incompatíveis, com se tem verificado há algum tempo !) não se sabendo, na prática o que é tal partido, tão…partido !
Para muitos, é o “partido do Dr. Sá Carneiro” e nada sabem sobre a “social democracia”; ficariam muito surpreendidos se soubessem que tal era o título do livro de Karl Marx em que se estabeleciam os princípios ideológicos do socialismo, sistema que só se tornou viável com uma prática ditatorial da sua versão comunista (Leninista), como se poderá confirmar agora por simples consulta na NET ! Logo se chamou à “social democracia”, “socialismo a diesel” nele embarcando os idealistas (designados por “peixinhos vermelhos a nadar em água benta”!) que confundem marxismo com Doutrina Social da Igreja, não se apercebendo que visando objectivos parecidos, são opostos nos meios de acção. Recordo o texto que escrevi, a propósito, que intitulei de “a bondade da esquerda”. Não estou (nem quero, nem devo, nem posso) a julgar pessoas concretas que terão agido, certamente (e no caso concreto dalgumas em que estou a pensar) de boa-fé; apenas pretendo analisar e retratar a situação existente.

O mesmo aconteceu com o PS, em que a trapalhada ideológica é semelhante, agrupando as “tendências” mais dispares, desde os mais moderados que se consideram, também, sociais-democratas, até aos mais radicais de tendência marxista, de discurso muito próximo dos da “extrema-esquerda”: uma grande confusão que faz com que se não entendam também e se não saiba nunca o rumo que vai adoptar !
Na prática os 2 partidos tem uma franja ideológica sobreposta, fazendo que muita gente não saiba para que lado há-de cair, ou caia umas vezes para um e outra, para o outro.
Claro que uma coisa são os “fundamentos ideológicos” e outra os “programas”, estes cozinhados para agradar ao eleitorado distraído (ou inocente, manipulável pala “comunicação social” !); outra coisa, ainda e como se tem verificado, é a prática governativa efectiva quando qualquer dos partidos detém o poder (e a responsabilidade real): nunca me esquece que o Dr. Mário Soares, que considero ter sido uma figura importante na consolidação dum estado não totalitário comunista, mas que no comício das Antas, no “verão quente de75”, ostentava o seu marxismo em grandes letras no relvado, sendo a primeira coisa que fez como Primeiro Ministro “meter o socialismo na gaveta” !! Todos se lembram ?
A confusão é tal que o PSD integra, no Parlamento Europeu, a “família conservadora” e o PS a designada “família social democrata” ! Está tudo fora do sítio, lá como cá !

Resulta deste desiderato que, na prática, qualquer governo, seja qual for a sua conotação partidária, acaba por fazer o mesmo, ou seja o que é necessário e conveniente face aos condicionamentos e ditames duma conjuntura cada vez mais globalizada, governando o PS à direita do que é preconizado pelo PSD, que defende posições à esquerda do anunciado pelo PS; nunca ninguém sabe quem está a falar verdade e, ainda menos, o que fará cada um, quando no poder. A situação global é cada vez mais complexa, estando o governo actual a adoptar medidas há muito preconizadas pelo CDS e com o PSD incapaz, portanto de se apresenta como alternativa; diz-se que há uma “crise de oposição” ! Acho, pessoalmente, que a crise é antiga e resulta da génese desta “espécie de democracia” (bem à portuguesa), em que os partidos fingem que são o que dizem para, demagogicamente, agradar ao “seu eleitorado” ( e ao do vizinho !), os eleitores fingem aceitar o que a “comunicação social” finge parecer acreditar, alimentando este “ciclo vicioso” ou circo, como já alguns chamam. Portugal transformou-se efectivamente, num “país de opereta” !
E assim se manterá enquanto não se corrigir este erro de base e se não “chamar os bois pelos nomes” reformulando, por um lado, o espectro partidário (o que seria uma verdadeira revolução, no correcto sentido da palavra) e passando o eleitorado a ter o discernimento e coragem (e seriedade) para “assumir” (como agora é moda) a sua posição formal no local que corresponde às suas convicções profundas. Analisando ao tais anexos ao referido teste conclui-se que a”maioria” (num universo de 12578 inquiridos) e que agora vota Sócrates é, de facto, social-democrata (cerca de 37%), sendo liberais 22%, conservadores 14% e comunistas 7%, o que retrata bem o nosso panorama político.
Parece poder concluir-se que (em correspondência aos 4 quadrantes políticos) deveria existir um partido declaradamente liberal, um conservador, outro social-democrata e um socialista, para além de outros, de menor expressão e mais radicais (para ambos os lados).

Julgo que será interessante que cada um faça o seu teste e tire as devidas ilações; comigo deu quase certo, ou melhor, corrigiu a minha presunção sobre o assunto!


MG 26.10.2008

quinta-feira, 19 de junho de 2008

A verdadeira "geração rasca" !

Um jovem, já com responsabilidades profissionais e familiares, ainda a propósito da “crise da autoridade” e lamentando-se das dificuldades que sente, desabafava que a culpa tinha sido da minha geração e da sua atitude acrítica perante os desmandos da “cultura das liberdades e dos direitos”.

Não pude deixar de lhe dar razão nesse ponto (embora pessoalmente rejeite a minha quota parte, pois tenho sempre procurado, “contra ventos e marés”, manter-me atento e preocupado, “pregando no deserto” contra a corrente do “deixa correr”,… corrente !).
Esta constatação não é nova e tive prova disso recentemente, aquando do referendo sobre o aborto, ao participar no movimento em “defesa da vida”. Tirei, então, duas conclusões:

- a importância duma verdadeira “educação sexual” (humana, já que a de que se fala, a reduz à sexualidade animal e à consequente necessidade de adoptar técnicas artificiais para minimizar as consequências das perversidades dos desvios e desmandos !); foi evidente a conclusão da defesa (na opinião de muita gente) do aborto, como corolário do fracasso do preservativo, sendo o recurso a este, por sua vez, a consequência natural da falibilidade e contingência dos meios preconizados pelo “planeamento familiar” (oficial) considerado numa óptica primária e redutora da “sexualidade humana” e do que deva ser o “amor conjugal”;
- a ignorância (com grande surpresa minha) da juventude mais formada, responsável e consciente, da fundamentação científica dos critérios éticos determinantes dos comportamentos preconizados, nesta matéria da sexualidade, por qualquer moral humanista, particularmente cristã e católica.

Constatei que os conhecimentos científicos e teológicos divulgados há mais de 40 anos, a que a minha geração teve já acesso quer por literatura publicada, quer pelas acções de formação dos Cursos de Preparação para o Matrimónio (CPM) e das Equipas de Nossa Senhora (ENS) e outros, parecem ter sido esquecidos, não tendo sido transmitidos à geração seguinte !

E se tal se passou no que se refere à “sexualidade humana”, o mesmo aconteceu nos mais variados aspectos da vida; instalou-se uma cultura materialista e hedonista, complacente com as modas, por mais caricatas e irracionais que sejam. Vale tudo e a minha geração adoptou a atitude cómoda de “deixar correr” ! Se as gerações novas tem comportamentos chocantes e aberrantes, é a consequência natural duma crise dos valores fundamentais; se há uma “geração rasca”, foi a nossa !
É evidente que não interessa deitar culpas, seja a quem for; há que perceber que nunca nenhuma outra geração anterior foi confrontada, em tão pouco tempo, com alterações culturais tão profundas: a perda de privacidade, a infiltração da influencia dos “meios de comunicação social”, a tal “crise de autoridade”, a mudança de “critérios de vida”, a influencia da “economia de mercado”, o “marketing”, etc. ! Foi tempo em que uma certa cultura da chamada “boa gente” era transmitida apenas pelo exemplo e autoridade (!) dos mais velhos; a tradição era mantida sem preocupação de aprofundar os seus fundamentos: “era assim, …porque sim” !

A culpa desta geração esteve em não ter estado atenta, não se ter preparado suficientemente (à medida dos desafios) e não reagir,… deixando correr !
As alterações referidas deixaram confusa muita gente, boa gente por tradição mas sem convicções profundas sobre os critérios e valores que fundamentavam a “sua moral”; por incapacidade, ignorância ou comodismo foram-se adaptando às ideias (ditas) modernas, na convicção de que conseguiriam transmitir às gerações seguintes a sua forma e estilo de vida, as suas normas morais e comportamentais, à semelhança do que acontecera com o transmitido pelas gerações anteriores, em relação à sua. O resultado está bem à vista !
A culpa esteve em terem-se acomodado e não terem tido capacidade para aprofundar as suas convicções de forma a terem capacidade para transmitir o que de essencial devia ter sido salvaguardado.
Qualquer moral (conjunto de normas e regras comportamentais) só subsiste como subsequência duma ética (conjunto de princípios e valores) fundamentada numa certa “filosofia de vida”; se é alterada a percepção da vida humana, novas éticas se estabelecem e novas “morais” proliferam na sociedade. Toda a gente considera legítimo ter a “sua moral “ !
Sendo os comportamentos que o senso-comum considera como desviantes e aberrantes, e com que somos já confrontados todos os dias, consequência desta nova “cultura”, não é esta geração jovem (totalmente) culpada: não herdou coisa melhor de quem não teve a capacidade para preservar os valores essenciais que fundamentavam a forma de vida que achavam natural adoptar.

Insisto que não interessa assacar culpas ! O que importa é perceber o que se passou, tomar consciência desse facto e procurar, empenhada e afincadamente, reencontrar a “rocha sólida”que que deve de “edificada a casa”, tendo a preocupação de transmitir o essencial de tal “sabedoria” aos mais novos. Assim se contribuirá para a sua felicidade e realização.
Tinha razão o tal jovem; “rasca”, foi a minha geração ! Faço ardentes votos de que ele tenha capacidade de agir de forma a que lhe não venham a ser assacadas idênticas culpas !

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Comissão sem "plano B" !

Os grandes gestores e políticos da actualidade não param de me surpreender. Ouvi, com grande espanto, o Sr. Presidente da Comissão declarar, com toda a naturalidade, que caso o referendo na Irlanda seja desfavorável ao chamado “tratado de Lisboa”, não há “plano B”!
Pensei que fosse bluff, mas comecei a ficar preocupado à medida que fui constatando que a “comunicação social” insistia nesse facto.

Afigura-se-me que quando há um grupo qualquer de entidades que se associam, integrando projectos e objectivos comuns, aceitando regras e procedimentos comuns e visando estratégias comuns para o benefício do conjunto e alguma, de entre elas, não quer aceitar as regras, a solução é fácil: sai do grupo !
Aceitando que a União Europeia é benéfica para os Países que a integram (e que, de certa forma, tal é uma inevitabilidade face à globalização), e que o “tratado de Lisboa” é o mais conveniente (tal como foi amplamente apregoado), não concebo (e custa-me a crer) que se admita que o interesse geral seja comprometido pela vontade de alguém.

Afinal vai haver “plano B”, ou há “jogo na manga” de que se não dá conhecimento aos contribuintes, que são os directamente afectados ?

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Autoridade efectiva

Começando por manifestar o meu maior apreço pelos editoriais do Sr. Director do Semanário “A Ordem”, reporto-me ao publicado recentemente sobre o tema “autoridade versus poder”, cujo teor subscrevo integralmente. Trata-se duna questão da maior actualidade e premência: vivemos num tempo em que a maior parte dos problemas decorrem da chamada “crise da autoridade”. Assim é na família, no ensino, na governação, na segurança, na justiça, etc. !

Se, como é referido, não é aceitável o exercício do poder, qualquer que seja, por quem não detenha autoridade para tal (o que seria autoritarismo !), o facto é que não há autoridade sem um quadro e referencias e valores que a valide.
Afigura-se-me ter que ser consideradas duas condições essenciais para que possa ser reconhecida autoridade, nalgum domínio, a alguém:
- que tenha reconhecida competência na matéria, seja qual for, e
- que aja por bem, de boa fé, em “espírito de serviço” e integral dedicação ao seu “ministério”,
e nunca, para exclusivo benefício próprio ou para satisfazer os seus apetites egoístas.

Entendo, assim, que não deve mandar quem quer. Estou em total contraposição com a cultura moderna do “eu quero”, arbitrário e egocentrista. Hoje toda a gente é levada a pensar apenas nos seus direitos e nos seus “quereres”, mesmo quando são completamente absurdos e meras manifestações duma cultura materialista e hedonista. Hoje, cada um se considera no direito de fazer o que bem lhe apetece, e não o que deve ! E assim se educam as criancinhas, potenciando a sua tendência espontânea para apenas “olhar par o umbigo” ! E assim se constrói uma sociedade em que cada um só pensa em si (ou nos seus mais próximos), que se arrisca a transformar numa selva. Não é o que se vai sentindo e se revela nas notícias de todos os dias ?
Sempre discordei, portanto, do aforismo
“ manda,… quem pode e obedece, …quem deve “
defendendo que, pelo contrário, deveria sempre ser “manda quem deve”, ou seja, quem tem autoridade para tal (tendo sabedoria e critérios válidos) e está consciente dos direitos e deveres do próprio e dos outros.

Esta forma de exercer a autoridade conduz a uma mudança radical de atitude e de cultura, de que decorreria, automaticamente, a resolução de todos os problemas: o governante com legítima autoridade efectiva faria do seu “ministério” um serviço a favor da população que o elegeu; o professor dedicaria o melhor das suas capacidades e talentos para ajudar os alunos a adquirir conhecimentos efectivamente úteis para a sua vida profissional e social; os pais e avós não usariam as crianças para seu gozo pessoal (como brinquedo ou para compensação de lacunas afectivas) e dedicariam toda a sua experiência e atenção (e afecto) para favorecer o seu desenvolvimento integral; os “agentes da autoridade” desempenhariam a sua actividade no sentido de resolver dificuldades e prevenir situações perturbadoras do bom convívio social, etc.

O abuso do exercício do poder sem autoridade efectiva, revestindo-se de formas de prepotência (que leva às mais diversas formas de corrupção) é uma consequência da “crise de autoridade” dos seus diversos agentes, seja por incapacidade e insuficiente preparação, seja pela falta desta consciência do “serviço” que deveriam ter a responsabilidade de prestar.
Considero portanto que, contrariamente ao que é hoje do senso comum, não deve mandar quem quer, impondo arbitrariamente os seus “quereres”, mas apenas quem sabe ter “autoridade efectiva” para tal, satisfazendo os dois critérios apontados !
Não quer dizer que quem tem essa autoridade não possa errar; só não erra quem não se empenha, ou não faz nada ! Somos humanos e tudo o que fazemos é limitado; só Deus é perfeito. Mas quem age de boa fé, dando o seu melhor, merece toda a compreensão e carinho.

MG 12.06.2008

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Futebol e desportivismo

Tendo estado ausente, apenas na noite de ontem tive ocasião de ver a última “quadratura do círculo”, programa que tenho programado gravar sempre, dado que é emitido a horas a que, normalmente, não posso assistir em directo. Vantagens das “novas tecnologias”!
O primeiro tema em análise referia-se, ainda, à situação do Futebol Clube do Porto, na sequência das penalidades fixadas pelas autoridades desportivas.
Fiquei agradavelmente surpreendido com o comentário do Dr. António Costa que, dizendo-se apreciador de futebol e adepto do Benfica, considera caricato que os resultados sejam decididos na secretaria, insistindo o Benfica em beneficiar, sem mérito próprio, na sequencia da eventual eliminação do FCP. Não posso deixar de realçar a sua atitude e manifestar o meu apreço pelo espírito desportivo que manifestou: é alguém que merece respeito !

Sendo apreciador e praticante amador (ainda !) de desporto, sempre olhei com reserva o chamado “desporto profissional”, que me parece uma perversão do que deve ser o papel do desporto na vida dos cidadãos. Tenho, ainda, menos simpatia pelo “futebolismo”, que tornou o jogo num circo, numa forma de alienação irracional das massas e num negócio.
Não sendo, portanto, um “viciado” e tendo as minhas simpatias, naturalmente, entendo que quem faça batota deva ser penalizado; quando me iniciei na vela, nós próprios içávamos no “brandal” o sinal de “desclassificado”, quando efectuávamos uma manobra que implicava tal penalização ( e continuávamos a lutar até ao fim,…desclassificados !).
Afigura-se-me, assim, que o FCP deverá ser punido, dentro das regras, sendo verdade que falseou os resultados. Mas …, quem tem moral par apontar o dedo:
“… quem não tiver culpa, atire a primeira pedra…”!

A ser o FCP punido, só haverá justiça se todos os que fizeram o mesmo o forem também ! Não deveriam outros clubes que tenham feito o mesmo, ou coisa semelhante, ter vergonha e calar-se ? Não seria uma boa oportunidade para mostrar o seu desportivismo e manifestarem a sua solidariedade com o FCP ? Isto é que seria dignificante.
O Sr. Presidente do Benfica (que tem alimentado esta querela e se põe em bicos de pés para, desta forma, conseguir o que, por mérito próprio, no campo não logrou alcançar !) está dando uma imagem muito primária de si e pouco dignificante para o Benfica:
“…porque não se calla…?” !

MG 11.06.2008

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Remunerações "chorudas": um problema ?

Referiu o SR. Presidente da República a conveniência em ser analisado o facto de haver, actualmente, uma discrepância difícil de justificar entre os vencimentos de “gestores” de empresas privadas e os do restante pessoal.
Relembra-se que há pouco tempo o Governo levantou idêntica questão, e bem, em relação aos “gestores públicos”, não indo, porém, à essência da questão e tendo-se limitado a tomar medidas efémeras para travar a “voragem”.

Não me surpreende, portanto, esta referência, sendo este um assunto que, de longa data, tenho vindo a comentar nos meus círculos de opinião; só me surpreende o só ser levantado agora. Mas mais me surpreende a reacção veiculada através da “comunicação social”, tendo ouvido classificar esta intervenção como um “atrevimento” e uma opinião controversa; ouvi mesmo quem dissesse que este assunto não é importante, que não é “o problema” e que não será por aí que se resolvem os problemas do País !
Não estou mais em desacordo: sendo verdade que a crise se não resolve apenas abordando esta questão, a sua “solução de fundo” muito pode contribuir para melhorar as condições de vida da maioria dos Portugueses: a questão de fundo é uma questão de cultura e de mentalidades.

Sempre que referia este tema recordava que em 1975, na empresa onde trabalhava (então já pública, e uma das maiores do País e cotada como uma das detentoras de técnica altamente qualificada, a nível internacional) as “estruturas representativas dos trabalhadores” expuseram os vencimentos de todo o pessoal; discordando, embora, da medida que considerava demagógica e inconsequente (como se verificou !), não resisti a dar uma olhadela, apenas para ter uma ideia de quanto ganhava o Director Geral, sendo eu um jovem Engenheiro, quase em princípio de carreira e, ainda, sem quaisquer responsabilidades de chefia. Constatei, com alguma surpresa, que o dito Senhor (que o era com “S”, quer como técnico, como gestor e como pessoa), com a responsabilidade máxima, a nível nacional, apenas ganhava (com todas as “alcavalas”) cerca do dobro do meu vencimento, tendo comentado com o colega que me acompanhava, que nem era muito !
Na altura, sendo uma das empresas que herdara, das que a precederam, a tradição de ser das que melhor pagava no País (eu ganhava já o equivalente a um Director, na “função pública”, o chamado “leque salarial” (desde o mais modesto, ao mais qualificado) era de 1/5, sensivelmente.
Um quadro superior que conhecia pessoalmente, e ao mais alto nível da “função pública” (equivalente a Director Geral) tinha um vencimento pouco diferente do meu e, como “mordomias”, direito a um carro (utilitário) apenas para serviço, como era necessário e plenamente justificável ! Eu ganhava, então, o suficiente para uma vida desafogada de “chefe de Família” da chamada “classe média/alta”, com 3 ou 4 filhos.
Era, à época, impensável que alguém, a trabalhar honestamente, pudesse auferir rendimentos muito diferentes do meu Director Geral; o vencimento de Ministro era uma referência inatingível ! Havia quem tivesse rendimentos superiores, mas decorrentes da sua actividade empresarial, remunerando o risco dos capitais investidos.

Recordo, também, que já em 1995, qualquer Director, na dita empresa e com responsabilidades sectoriais limitadas, auferia já valores elevados (confidenciais e fora das “tabelas salariais”) e com regalias adicionais (carro próprio, de gama alta, oferecido pela empresa, combustível que dava para os carros todos da Família, “cartão dourado”, etc. ). Parece que as “conquistas dos trabalhadores” apenas beneficiaram, afinal, os “gestores de topo”, já que o nível geral de vencimentos da “tabela” se tinha degradado sensivelmente.
Friso que se não tratava de entidades privadas, mas de “empresas públicas”, do Estado, nos mais diversos sectores da economia.
Recentemente ficou o País estupefacto com a coragem de alguém que, ao fim de poucos meses como Administrador duma entidade bem conhecida, se reformou com uma pensão escandalosa !

Já na época comecei a ficar sensibilizado para a questão agora levantada, ao tomar conhecimento dos “faraónicos” vencimentos de futebolistas, treinadores, “animadores” (de gosto e qualidade muito discutível) e locutores das TVs (públicas e privadas - como se devem revolver na tumba nomes como os do Mensurado, Caetano, Henrique Mendes, para já nem falar em Fernando Peça !), etc., cujo mérito me não parecia justificar, minimamente, tal estatuto; o futebol era “desporto” e, o Sporting, “leão”, no tempo dos “5 violinos”, que se viviam bem (não sei), não eram motivo de escândalo !

Agora, levantada a questão, fico siderado ao saber-se, pelos noticiários das TVs, que Portugal está na vanguarda do desaforo: há quem ganhe 40 vezes, 60 vezes e, até 200 vezes o salário dos seus trabalhadores, sendo a “média nacional” de 30 vezes !!
Considerando como razoável um salário (actual) de 3.000,00 €/m, equivalente a 600 c./m ou seja, a 8.400 c./ano, não posso estar mais de acordo como Sr. Presidente quando se sabe que há quem ganhe 100 000,00 €/m (cerca de 20.000 c./m, o equivalente ao preço de uma habitação já de qualidade acima da média da população !).
Parece-me, efectivamente, muito difícil de justificar ! Perdeu-se a vergonha !

E isto não é problema ?
Há quem defenda que nas empresas privadas ninguém tem nada com isso: cada um é livre de pagar o que quer e que é diferente das entidades do Estado. Não é verdade: por um lado, se a empresa produz “pós pr’às pulgas”, o preço tem que reflectir os custos e, portanto, não é o patrão que paga, mas sim o consumidor que vê, assim os preços inflacionados; por outro lado, tal prática tem um efeito indutor na “administração pública” que não consegue resistir à tentação (e necessidade) de oferecer condições parecidas para aliciar quadros qualificados.
Portanto, isto é um problema e se não é “o problema”, é um seu sintoma inquietante.
O problema é uma questão de cultura e mentalidade.
Numa economia saudável e sustentável, o cidadão deveria ser habituado a discernir o essencial do supérfluo. Quem não está interessado nesta “conversa” argumenta que o que é essencial para uns, poderá ser supérfluo para outros e que é difícil definir a fronteira; é verdade, mas se há uma franja de indefinição, qualquer pessoa de bom-senso tem consciência do que é aceitável, razoável e justificável, e do que é luxo e extravagancia ! A noção de justiça começa precisamente aí !
Hoje, numa sociedade materialista e consumista, muita gente se arroga o “direito” de gerir os recursos a seu “bel-prazer”, fazendo uma vida faustosa. Basta ver, no “parque automóvel” deste pobre País, a percentagem da carros de “topo de gama”; ouviu-se nos noticiários que nesta “quadra (dita) Natalícia” as viagens para os destinos mais exóticos estavam esgotadas !
Corresponde este “estilo de vida” a um efectivo progresso ? Sê-lo-ia se a subida do “nível de vida”fosse equilibrada, dentro de critérios de equidade. É o que defende a “doutrina social da Igreja”; há, porém, muita gente que se diz católica e, até, de esquerda, a achar isto muito natural e que,… não é problema !
E este é o problema: uma questão de mentalidades.
Quando se vive no “culto do ter”, o que interessa é ter e seja como for: vale tudo ! Ou não é o que se verifica ? Não é esta a origem de tanta “economia paralela”, da corrupção, do “trafico de influencias”,… das várias formas de violência ? O que importa é “viver à grande”, custe o que custar, sofra quem sofrer, atropele-se o que for !
Não defendi nunca que sejamos todos iguais. Concordei sempre que o mérito, o empenho e dedicação, a competência, devem ser estimulados e recompensados, não bastando uma “palmadinha nas costas”. Mas,… há limites ! Em 1975 o meu Director Geral ganhava 2 vezes o que eu, ainda jovem, auferia como salário e o “leque salarial” era de 1/5 !
Hoje qualquer jovem licenciado (e sabe-se como !) considera natural iniciar-se com um “estilo de vida” que não era, em 1975 ambicionado por um “sénior” !
O problema é uma questão de “filosofia de vida”; é uma questão cultural.
É um grave problema ! Grave e difícil.
Ficou provado que as “lutas” dos “ismos” nada resolveram !
Urge, portanto, uma verdadeira revolução de mentalidades.

MG 07.01.2008

sábado, 24 de maio de 2008

Que praxe é esta?

Fui, uma vez mais, surpreendido com a notícia, em jornal diário, de mais um brutal abuso ocorrido com o pretexto da “festa” duma qualquer Queima das Fitas, numa qualquer Academia em Portugal: uma jovem foi violada !
Já anteriormente me tinha espantado o revelado na imprensa sobre graves desmandos e abusos ocorridos também numa “festa académica”, na chamada “recepção aos caloiros”.


Tais lamentáveis incidentes ocorrem, portanto, em manifestações académicas, praticadas por “estudantes universitários”, por futuros “doutores”, ou seja, a “elite” de que irão sair os futuros educadores, pais e “encarregados de educação”, professores, chefes, dirigentes de empresas e, mesmo, da Pátria ! Espanta-se o Sr. Presidente da República com a indiferença e ignorância das novas gerações em relação à política ! Não será isso mais um dos reflexos da “cultura” que se vive e que se cultiva nas nossas Universidades ?


Quer isto dizer que a praxe, em si, seja má ou indesejável ? Certamente que não; depende do uso que dela se faz ! A praxe, nas suas várias formas, existirá, certamente, desde que há associações humanas, ou seja, provavelmente desde que o bicho-homem é gente, das mais variadas formas e com os mais diversos fins: qualquer “grupo de amigos” ou “família” tem as suas regras , valores e tradições e só se integra quem corresponda ao “perfil” exigido e se comprometa a respeitar a sua “cultura específica” e a “jogar o jogo”. Assim é com a Maçonaria (em que o “neófito” passa por um complexo processo de “iniciação” até ao ritual da integração), como em qualquer Igreja (onde o “catecúmeno” deve ser sujeito a uma formação que o habilite a receber o “baptismo”), havendo sempre “padrinhos”, espécie de “fiadores” que asseguram a idoneidade do candidato e a sua formação para que dêem garantias de que o candidato irá ser um membro “de pleno direito”. Assim é em qualquer clube, com alguma credibilidade, onde nenhum sócio é admitido sem a “proposta” ser avalisada por um proponente considerado idóneo. Todas as entidades tem, geralmente, as suas praxes.


Assim foi nos meios académicos desde os seus primórdios, sendo sobejamente conhecidas as divertidas histórias, repletas da chamada “piada académica”, especialmente das tradições das “repúblicas” de Coimbra, onde se instalou a mais antiga Universidade Portuguesa. Como não frequentei esta academia (não fugi ao “terror do Beires”, na sua Mecânica Racional !), apenas me poderei referir à minha experiencia no Orfeão Universitário do Porto (OUP), único organismo que, ao tempo, tinha e mantinha “tradição académica”, no Porto. Nessa época o uso do traja académico (“capa e batina”, à semelhança do traje coimbrão) quase se restringia apenas aos seus elementos, que o usavam por imperativo da sua participação nas actividades do OUP.

Como curiosidade, desconhecida da maioria, regista-se que foi o OUP o primeiro organismo cultural universitário a integrar raparigas, tendo sido então, pelos anos 50, inventado o “traje académico feminino”, tal como ainda hoje +e usado; ainda é viva, e de boa saúde, uma das orfeonistas de então !

O que é oportuno e importante referir, a propósito da questão levantada, é aquilo em que consistia a praxe académica de então, quais as suas fundamentações e objectivos. A cerimónia marcante era o “baptismo do caloiro”: o orfeonista era considerado caloiro até ao “baptismo”, momento a partir do qual passava à excelsa categoria de “doutor” ! O dito baptismo era a “prova de fogo” em que o candidato tinha que evidenciar (de forma personalizada e mão em “manada”) as suas próprias qualidades (e habilidades) para integrar aquela comunidade: a sua arte, sentido de humor, simpatia, desembaraço, etc. Era um “exame” em que a “besta” (2 furos abaixo de cão e 4 abaixo de polícia !) era julgado por um “jurado de veteranos” sisudos e severos, sendo a “faena” conduzida por um “padrinho” que tinha que ter imaginação (engenho e arte) e ironia para prescrutar as habilidades e fraquezas do “animal”; a encenação decorria em ambiente solene, pesado, quase soturno, tão aterrador quanto as circunstancias o permitiam. No final, quando os “doutores” entendiam ser suficiente, o mais antigo, que presidia, baptizando o “debutante” com um nome, sempre arrevesado e com alguma referencia irónica ao perfil do novo “doutor”, e geralmente em “latinórium”, nome esse sugerido pelo padrinho e aprovado após acesa controvérsia ! Fui baptizado numa digressão do OUP a Trás-os-Montes, num sala do Clube de Bragança, adaptada para o cerimonial, tendo sido meu padrinho o decano da Academia Portuense, o meu amigo Dr. Flávio Serzedelo, que hoje, com mais de 80 anos, continua a saber os nomes e datas de nascimento de todos os seus afilhados (largas dezenas), o que é ilucidativo do relevo que era então dado ao facto !


O que importa realçar é que tal ritual, tendo o objectivo de explorar e realçar as características e capacidades da personalidade do caloiro, decorria num ambiente de civilizada elevação intelectual (com alguma brejeirisse pelo meio !), explorando a piada académica com humor sarcástico, desafiando a imaginação quer do padrinho, quer do caloiro. Nada de grave ou inconveniente ocorria, sendo certo que tal operava, frequentemente, uma mudança de comportamento e atitude dos baptizados, que tinham, assim, oportunidade de revelar as suas capacidades e talentos até aí desapercebidos e que iriam ser, posteriormente, explorados na sua passagem pelo OUP. Ficava sempre um laço especial de amizade ligando o neófito e o seu padrinho ! Era, portanto, uma prática, útil, interessante e pedagógica. Tinha classe !


Não vale a pena alongar-nos a caricaturar a praxe a que se assiste na actualidade e de que resultam os lamentáveis abusos de que se tomou conhecimento. Por falta de nível e cultura, afloram os instintos primários de quem detém, despoticamente, um “poder efémero”; mete dó ver a “carneirada”, em manada, numa atitude de humilhante subserviência, portando-se com animais amestrados, conduzidos pelo “doutor” (estagiário de ditador !), sem qualquer graça ou imaginação ! Só me espanta que na era das “liberdades e dos direitos”, seja aceite de forma acrítica esta nova imagem da escravatura; afinal parece que a prepotência e a subserviência coexistem caracterizando, de forma endógena, a índole de muita gente, dita moderna ! É moda ! É praxe ! Vale tudo !


Os excessos, de todo injustificados, reveladores de ignorância e estupidez, devem ser claramente reprovados e reprimidos pelas Autoridades académicas, afastando do seu seio quem desta forma revela total incapacidade para pertencer a esta comunidade de elites intelectuais e sociais; os crimes deverão ser punidos pelas entidades Judiciais de forma clara e exemplar. Só assim terão estas notícias alguma utilidade pedagógica: dar consciência e fazer perceber a razão de ser e utilidade das praxes e acabar com esta brutalidade primária.