Um jovem, já com responsabilidades profissionais e familiares, ainda a propósito da “crise da autoridade” e lamentando-se das dificuldades que sente, desabafava que a culpa tinha sido da minha geração e da sua atitude acrítica perante os desmandos da “cultura das liberdades e dos direitos”.
Não pude deixar de lhe dar razão nesse ponto (embora pessoalmente rejeite a minha quota parte, pois tenho sempre procurado, “contra ventos e marés”, manter-me atento e preocupado, “pregando no deserto” contra a corrente do “deixa correr”,… corrente !).
Esta constatação não é nova e tive prova disso recentemente, aquando do referendo sobre o aborto, ao participar no movimento em “defesa da vida”. Tirei, então, duas conclusões:
- a importância duma verdadeira “educação sexual” (humana, já que a de que se fala, a reduz à sexualidade animal e à consequente necessidade de adoptar técnicas artificiais para minimizar as consequências das perversidades dos desvios e desmandos !); foi evidente a conclusão da defesa (na opinião de muita gente) do aborto, como corolário do fracasso do preservativo, sendo o recurso a este, por sua vez, a consequência natural da falibilidade e contingência dos meios preconizados pelo “planeamento familiar” (oficial) considerado numa óptica primária e redutora da “sexualidade humana” e do que deva ser o “amor conjugal”;
- a ignorância (com grande surpresa minha) da juventude mais formada, responsável e consciente, da fundamentação científica dos critérios éticos determinantes dos comportamentos preconizados, nesta matéria da sexualidade, por qualquer moral humanista, particularmente cristã e católica.
Constatei que os conhecimentos científicos e teológicos divulgados há mais de 40 anos, a que a minha geração teve já acesso quer por literatura publicada, quer pelas acções de formação dos Cursos de Preparação para o Matrimónio (CPM) e das Equipas de Nossa Senhora (ENS) e outros, parecem ter sido esquecidos, não tendo sido transmitidos à geração seguinte !
E se tal se passou no que se refere à “sexualidade humana”, o mesmo aconteceu nos mais variados aspectos da vida; instalou-se uma cultura materialista e hedonista, complacente com as modas, por mais caricatas e irracionais que sejam. Vale tudo e a minha geração adoptou a atitude cómoda de “deixar correr” ! Se as gerações novas tem comportamentos chocantes e aberrantes, é a consequência natural duma crise dos valores fundamentais; se há uma “geração rasca”, foi a nossa !
É evidente que não interessa deitar culpas, seja a quem for; há que perceber que nunca nenhuma outra geração anterior foi confrontada, em tão pouco tempo, com alterações culturais tão profundas: a perda de privacidade, a infiltração da influencia dos “meios de comunicação social”, a tal “crise de autoridade”, a mudança de “critérios de vida”, a influencia da “economia de mercado”, o “marketing”, etc. ! Foi tempo em que uma certa cultura da chamada “boa gente” era transmitida apenas pelo exemplo e autoridade (!) dos mais velhos; a tradição era mantida sem preocupação de aprofundar os seus fundamentos: “era assim, …porque sim” !
A culpa desta geração esteve em não ter estado atenta, não se ter preparado suficientemente (à medida dos desafios) e não reagir,… deixando correr !
As alterações referidas deixaram confusa muita gente, boa gente por tradição mas sem convicções profundas sobre os critérios e valores que fundamentavam a “sua moral”; por incapacidade, ignorância ou comodismo foram-se adaptando às ideias (ditas) modernas, na convicção de que conseguiriam transmitir às gerações seguintes a sua forma e estilo de vida, as suas normas morais e comportamentais, à semelhança do que acontecera com o transmitido pelas gerações anteriores, em relação à sua. O resultado está bem à vista !
A culpa esteve em terem-se acomodado e não terem tido capacidade para aprofundar as suas convicções de forma a terem capacidade para transmitir o que de essencial devia ter sido salvaguardado.
Qualquer moral (conjunto de normas e regras comportamentais) só subsiste como subsequência duma ética (conjunto de princípios e valores) fundamentada numa certa “filosofia de vida”; se é alterada a percepção da vida humana, novas éticas se estabelecem e novas “morais” proliferam na sociedade. Toda a gente considera legítimo ter a “sua moral “ !
Sendo os comportamentos que o senso-comum considera como desviantes e aberrantes, e com que somos já confrontados todos os dias, consequência desta nova “cultura”, não é esta geração jovem (totalmente) culpada: não herdou coisa melhor de quem não teve a capacidade para preservar os valores essenciais que fundamentavam a forma de vida que achavam natural adoptar.
Insisto que não interessa assacar culpas ! O que importa é perceber o que se passou, tomar consciência desse facto e procurar, empenhada e afincadamente, reencontrar a “rocha sólida”que que deve de “edificada a casa”, tendo a preocupação de transmitir o essencial de tal “sabedoria” aos mais novos. Assim se contribuirá para a sua felicidade e realização.
Tinha razão o tal jovem; “rasca”, foi a minha geração ! Faço ardentes votos de que ele tenha capacidade de agir de forma a que lhe não venham a ser assacadas idênticas culpas !
quinta-feira, 19 de junho de 2008
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