Começando por manifestar o meu maior apreço pelos editoriais do Sr. Director do Semanário “A Ordem”, reporto-me ao publicado recentemente sobre o tema “autoridade versus poder”, cujo teor subscrevo integralmente. Trata-se duna questão da maior actualidade e premência: vivemos num tempo em que a maior parte dos problemas decorrem da chamada “crise da autoridade”. Assim é na família, no ensino, na governação, na segurança, na justiça, etc. !
Se, como é referido, não é aceitável o exercício do poder, qualquer que seja, por quem não detenha autoridade para tal (o que seria autoritarismo !), o facto é que não há autoridade sem um quadro e referencias e valores que a valide.
Afigura-se-me ter que ser consideradas duas condições essenciais para que possa ser reconhecida autoridade, nalgum domínio, a alguém:
- que tenha reconhecida competência na matéria, seja qual for, e
- que aja por bem, de boa fé, em “espírito de serviço” e integral dedicação ao seu “ministério”,
e nunca, para exclusivo benefício próprio ou para satisfazer os seus apetites egoístas.
Entendo, assim, que não deve mandar quem quer. Estou em total contraposição com a cultura moderna do “eu quero”, arbitrário e egocentrista. Hoje toda a gente é levada a pensar apenas nos seus direitos e nos seus “quereres”, mesmo quando são completamente absurdos e meras manifestações duma cultura materialista e hedonista. Hoje, cada um se considera no direito de fazer o que bem lhe apetece, e não o que deve ! E assim se educam as criancinhas, potenciando a sua tendência espontânea para apenas “olhar par o umbigo” ! E assim se constrói uma sociedade em que cada um só pensa em si (ou nos seus mais próximos), que se arrisca a transformar numa selva. Não é o que se vai sentindo e se revela nas notícias de todos os dias ?
Sempre discordei, portanto, do aforismo
“ manda,… quem pode e obedece, …quem deve “
defendendo que, pelo contrário, deveria sempre ser “manda quem deve”, ou seja, quem tem autoridade para tal (tendo sabedoria e critérios válidos) e está consciente dos direitos e deveres do próprio e dos outros.
Esta forma de exercer a autoridade conduz a uma mudança radical de atitude e de cultura, de que decorreria, automaticamente, a resolução de todos os problemas: o governante com legítima autoridade efectiva faria do seu “ministério” um serviço a favor da população que o elegeu; o professor dedicaria o melhor das suas capacidades e talentos para ajudar os alunos a adquirir conhecimentos efectivamente úteis para a sua vida profissional e social; os pais e avós não usariam as crianças para seu gozo pessoal (como brinquedo ou para compensação de lacunas afectivas) e dedicariam toda a sua experiência e atenção (e afecto) para favorecer o seu desenvolvimento integral; os “agentes da autoridade” desempenhariam a sua actividade no sentido de resolver dificuldades e prevenir situações perturbadoras do bom convívio social, etc.
O abuso do exercício do poder sem autoridade efectiva, revestindo-se de formas de prepotência (que leva às mais diversas formas de corrupção) é uma consequência da “crise de autoridade” dos seus diversos agentes, seja por incapacidade e insuficiente preparação, seja pela falta desta consciência do “serviço” que deveriam ter a responsabilidade de prestar.
Considero portanto que, contrariamente ao que é hoje do senso comum, não deve mandar quem quer, impondo arbitrariamente os seus “quereres”, mas apenas quem sabe ter “autoridade efectiva” para tal, satisfazendo os dois critérios apontados !
Não quer dizer que quem tem essa autoridade não possa errar; só não erra quem não se empenha, ou não faz nada ! Somos humanos e tudo o que fazemos é limitado; só Deus é perfeito. Mas quem age de boa fé, dando o seu melhor, merece toda a compreensão e carinho.
MG 12.06.2008
quinta-feira, 12 de junho de 2008
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