Fui, uma vez mais, surpreendido com a notícia, em jornal diário, de mais um brutal abuso ocorrido com o pretexto da “festa” duma qualquer Queima das Fitas, numa qualquer Academia em Portugal: uma jovem foi violada !
Já anteriormente me tinha espantado o revelado na imprensa sobre graves desmandos e abusos ocorridos também numa “festa académica”, na chamada “recepção aos caloiros”.
Tais lamentáveis incidentes ocorrem, portanto, em manifestações académicas, praticadas por “estudantes universitários”, por futuros “doutores”, ou seja, a “elite” de que irão sair os futuros educadores, pais e “encarregados de educação”, professores, chefes, dirigentes de empresas e, mesmo, da Pátria ! Espanta-se o Sr. Presidente da República com a indiferença e ignorância das novas gerações em relação à política ! Não será isso mais um dos reflexos da “cultura” que se vive e que se cultiva nas nossas Universidades ?
Quer isto dizer que a praxe, em si, seja má ou indesejável ? Certamente que não; depende do uso que dela se faz ! A praxe, nas suas várias formas, existirá, certamente, desde que há associações humanas, ou seja, provavelmente desde que o bicho-homem é gente, das mais variadas formas e com os mais diversos fins: qualquer “grupo de amigos” ou “família” tem as suas regras , valores e tradições e só se integra quem corresponda ao “perfil” exigido e se comprometa a respeitar a sua “cultura específica” e a “jogar o jogo”. Assim é com a Maçonaria (em que o “neófito” passa por um complexo processo de “iniciação” até ao ritual da integração), como em qualquer Igreja (onde o “catecúmeno” deve ser sujeito a uma formação que o habilite a receber o “baptismo”), havendo sempre “padrinhos”, espécie de “fiadores” que asseguram a idoneidade do candidato e a sua formação para que dêem garantias de que o candidato irá ser um membro “de pleno direito”. Assim é em qualquer clube, com alguma credibilidade, onde nenhum sócio é admitido sem a “proposta” ser avalisada por um proponente considerado idóneo. Todas as entidades tem, geralmente, as suas praxes.
Assim foi nos meios académicos desde os seus primórdios, sendo sobejamente conhecidas as divertidas histórias, repletas da chamada “piada académica”, especialmente das tradições das “repúblicas” de Coimbra, onde se instalou a mais antiga Universidade Portuguesa. Como não frequentei esta academia (não fugi ao “terror do Beires”, na sua Mecânica Racional !), apenas me poderei referir à minha experiencia no Orfeão Universitário do Porto (OUP), único organismo que, ao tempo, tinha e mantinha “tradição académica”, no Porto. Nessa época o uso do traja académico (“capa e batina”, à semelhança do traje coimbrão) quase se restringia apenas aos seus elementos, que o usavam por imperativo da sua participação nas actividades do OUP.
Como curiosidade, desconhecida da maioria, regista-se que foi o OUP o primeiro organismo cultural universitário a integrar raparigas, tendo sido então, pelos anos 50, inventado o “traje académico feminino”, tal como ainda hoje +e usado; ainda é viva, e de boa saúde, uma das orfeonistas de então !
O que é oportuno e importante referir, a propósito da questão levantada, é aquilo em que consistia a praxe académica de então, quais as suas fundamentações e objectivos. A cerimónia marcante era o “baptismo do caloiro”: o orfeonista era considerado caloiro até ao “baptismo”, momento a partir do qual passava à excelsa categoria de “doutor” ! O dito baptismo era a “prova de fogo” em que o candidato tinha que evidenciar (de forma personalizada e mão em “manada”) as suas próprias qualidades (e habilidades) para integrar aquela comunidade: a sua arte, sentido de humor, simpatia, desembaraço, etc. Era um “exame” em que a “besta” (2 furos abaixo de cão e 4 abaixo de polícia !) era julgado por um “jurado de veteranos” sisudos e severos, sendo a “faena” conduzida por um “padrinho” que tinha que ter imaginação (engenho e arte) e ironia para prescrutar as habilidades e fraquezas do “animal”; a encenação decorria em ambiente solene, pesado, quase soturno, tão aterrador quanto as circunstancias o permitiam. No final, quando os “doutores” entendiam ser suficiente, o mais antigo, que presidia, baptizando o “debutante” com um nome, sempre arrevesado e com alguma referencia irónica ao perfil do novo “doutor”, e geralmente em “latinórium”, nome esse sugerido pelo padrinho e aprovado após acesa controvérsia ! Fui baptizado numa digressão do OUP a Trás-os-Montes, num sala do Clube de Bragança, adaptada para o cerimonial, tendo sido meu padrinho o decano da Academia Portuense, o meu amigo Dr. Flávio Serzedelo, que hoje, com mais de 80 anos, continua a saber os nomes e datas de nascimento de todos os seus afilhados (largas dezenas), o que é ilucidativo do relevo que era então dado ao facto !
O que importa realçar é que tal ritual, tendo o objectivo de explorar e realçar as características e capacidades da personalidade do caloiro, decorria num ambiente de civilizada elevação intelectual (com alguma brejeirisse pelo meio !), explorando a piada académica com humor sarcástico, desafiando a imaginação quer do padrinho, quer do caloiro. Nada de grave ou inconveniente ocorria, sendo certo que tal operava, frequentemente, uma mudança de comportamento e atitude dos baptizados, que tinham, assim, oportunidade de revelar as suas capacidades e talentos até aí desapercebidos e que iriam ser, posteriormente, explorados na sua passagem pelo OUP. Ficava sempre um laço especial de amizade ligando o neófito e o seu padrinho ! Era, portanto, uma prática, útil, interessante e pedagógica. Tinha classe !
Não vale a pena alongar-nos a caricaturar a praxe a que se assiste na actualidade e de que resultam os lamentáveis abusos de que se tomou conhecimento. Por falta de nível e cultura, afloram os instintos primários de quem detém, despoticamente, um “poder efémero”; mete dó ver a “carneirada”, em manada, numa atitude de humilhante subserviência, portando-se com animais amestrados, conduzidos pelo “doutor” (estagiário de ditador !), sem qualquer graça ou imaginação ! Só me espanta que na era das “liberdades e dos direitos”, seja aceite de forma acrítica esta nova imagem da escravatura; afinal parece que a prepotência e a subserviência coexistem caracterizando, de forma endógena, a índole de muita gente, dita moderna ! É moda ! É praxe ! Vale tudo !
Os excessos, de todo injustificados, reveladores de ignorância e estupidez, devem ser claramente reprovados e reprimidos pelas Autoridades académicas, afastando do seu seio quem desta forma revela total incapacidade para pertencer a esta comunidade de elites intelectuais e sociais; os crimes deverão ser punidos pelas entidades Judiciais de forma clara e exemplar. Só assim terão estas notícias alguma utilidade pedagógica: dar consciência e fazer perceber a razão de ser e utilidade das praxes e acabar com esta brutalidade primária.
sábado, 24 de maio de 2008
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