O cenário de guerra deve ser algo de indescritivelmente horroroso: o sofrimento inimaginável de uma morte violenta, o sofrimento dos feridos, a dor dos familiares, o estado de choque dos sobreviventes, a tragédia de vidas destroçadas e de situações de miséria ! Tendo feito, durante mais de quatro anos, o então chamado “serviço militar” no período da nossa “guerra do Ultramar”, tive a sorte de as circunstancias (legítimas, frise-se !) me terem poupado a tal experiência.
Mas a própria expressão usada habitualmente (e irreflectidamente) de “cenário” traduz ou revela o essencial da questão: a guerra é uma farsa, usada cínica e perversamente para servir interesses inconfessados, apresentado como entretenimento aproveitando o sadismo das gentes, sempre ávidas de espectáculos sensacionalistas ! Nada como um bom acidente de aviação ou um tsunami para vender tanto mais, quanto mais gente ficar estropiada; não me esquece a revolta que senti com a procissão de “mirones-pacóbios” que se deslocou a Entre-os Rios, aquando do acidente da ponte, a ver se aparecia mais um ! Quanto maior a tragédia, mais sensacional é a notícia, mais publicidade se vende,…,melhor é o negócio !
Choca-me, profundamente, a actuação das equipas de jornalistas, especialmente a atitude fria, insensível e indiferente dos repórteres de imagem, sempre à busca da mais horrenda, ávidos de sucesso e protagonismo e, ainda, armados em heróis.
Esta é uma questão a que a opinião pública começa a estar atenta, há algum tempo, segundo tenho vindo a constatar, começando a ser comentada em diversas oportunidades e que entendi dever abordar agora, depois de um comentário meu a um artigo glico-doce do presidente de um organismo de filantropia (AMI) sobre a guerra da Palestina, de que se poderia concluir que uns eram os bons, e os outros,… os maus ! Para quem tem, aparentemente, um conhecimento no terreno das realidades, tal posição pareceu-me ser demasiado ingénua, para não dizer facciosa. Entendo, assim, dever justificar o meu comentário. Escolhi fazê-lo hoje, para não esquecer, no dia em que toma posse o mais mediático dos presidentes dos USA, de que se espera poder dispor duma “varinha mágica” para resolver os problemas da actualidade; vamos aguardar para ver !
Voltando ao tema, analisemos a “máquina da guerra” (das guerrinhas), conforme nos é dado avaliar pelos panoramas noticiosos, de que 40% é futebol (espécie de guerrinha, também), se do que dos restantes 60%, 80% apresentam as mais diversas guerras e guerrinhas: das oposições contra o Governo, da esquerda contra a direita, dos professores contra a Ministra, dos alunos contra “não sabem quem”, das mulheres contra os homens, dos jovens contra os “sistemas” (sejam quais forem!), dos muçulmanos contra os cristãos, até dos cristãos uns contra os outros, do oriente contra o ocidente, do sul contra o norte,…etc. ! Tudo eventos muito espontâneos que ocorrem, por acaso, de forma programada, e seguindo modelos de actuação casualmente idênticos ! Só não vê, quem está muito distraído, ou não quer.
Os pretextos são os mais variados: diferenças de raça, identidades regionais, choques de culturas, contrastes de estatuto social ou financeiro e, imagine-se, até de religiõesinhas: em “nome de Deus” (por amor !), toca a matar ! É um espanto !
E, como nunca se resolveu algum problema real pelas “justas lutas”, cada cena é mantida até cansar as “audiências”, ficando tudo na mesma, e em “banho-maria” até à próxima oportunidade; nos intervalos, para ocupar, inventam-se outra guerrinhas, por exemplo, atacando o casamento e defendendo as “uniões de facto” (heterossexuais) e enaltecendo o casamento dos homosexuais; há, ainda, em caso de falta de melhor, a questão do casamento dos Padres e da igualdade das Freiras, tema com que muito se preocupam os ateus !
As contradições dos argumentos é gritante: onde convém, exalta-se o patriotismo, ou o regionalismo, ou o clubismo; a mesma gente, no lado oposto, apela à igualdade e fraternidade ! Foi sempre assim, ao longo da história, desde Roma à Revolução Francesa, ou ao Maio de 68. Assim foi com a nossa “guerra do Ultramar” onde os povos se lembraram, todos ao mesmo tempo, de se revoltar contra os que estimavam como família e que agora desejariam que voltassem; o resultado da sua libertação viu-se: foi o que se esperava !
Então, como se entende tal contradição, em que os movimentos (ditos) pacifistas recorram a meios violentos par fingir que lutam pela paz ? Como conseguem mobilizar gente para as suas causas e convencê-los a lutar, até dar a vida, nessas “guerrinhas” ?
Esta é a questão ! A guerra não acabará nunca enquanto se não perceber e tomar consciência da sua razão e se não atacar, consequentemente, o mal de raiz: a guerra é (especialmente na modernidade) um negócio visando a defesa dos interesses dos “senhores da guerra”, que se relacionam com a indústria e tráfego de armamento.
Esta não é apenas a minha opinião inspirada ! É um facto cuja consciência se manifesta nos mais variados fóruns e, até já, em diversas produções cinematográficas (“diamante de sangue”, “senhores da guerra”, “guerra,SA”- um grande “filantropo” detentor de uma entidade de preservação mundial do Ambiente, era o responsável por um desastre ecológico afectando povos que alimentavam os seus “jogos de poder “!), etc.
Assim, vou limitar-me a esquematizar a “máquina da guerra” sugerindo a consideração de 5 “esferas de influência”, sendo a central a “esfera política” (que detém, oficialmente, o poder de decidir, fingindo que governa e gere os conflitos de interesses de que diz fazer a “concertação”), rodeada das outras 4: por cima (!), a esfera do “poder financeiro” (apenas a dos que enriquecem, sem escrúpulos, de qualquer forma, mesmo à custa do sofrimento dos outros- sempre existiu !); dum lado, a esfera da “Comunicação Social” (que constrói e manipula a chamada “opinião pública”, segundo as orientações da “2ª esfera”, de acordo com as suas estratégias e conveniências); do outro, a esfera das “estruturas organizativas” (ONGs, sindicatos, movimentos, associações- estruturas permanentes, montadas para desencadear as “guerrinhas”) e, finalmente, por baixo (!), a 5ª esfera a da “malta”: as vítimas, os “figurantes” (jovens, trabalhadores, proletários, ambientalistas, mães-solteiras, etc.) que são a “mão de obra”, ou “carne para canhão” que, ingenuamente, “dão o corpo ao manifesto”, convencidos que estão a defender uma qualquer causa, sem perceber que estão, de facto, a servir a 2ª esfera !
Há, ainda, uns ingénuos distraídos (tidos por bem intencionados) geralmente armados em “intelectuais” que se põem mesmo a jeito para servir de “porta bandeira” das ideologias que representam, usados para lhes dar credibilidade, funcionando como “propagandeiros-baladeiros” das “liberdades sem responsabilidades”, dos “direitos sem deveres”, das “igualdades do que é (naturalmente) desigual”, das “fraternidades sem caridade”, da “justiça sem regras”, das “morais sem ética”, etc- tudo a que chamam de moderno e progressista, para assustar os reaccionários !
É tudo uma farsa; se o não fosse, já se tinham resolvido os conflitos que afligem a humanidade.
E não é por falta de recursos: como se verifica coma a actual “crise financeira” mundial, quando é preciso, logo aparem milhões de milhões, com tantos zeros, que se perde a noção ! Num recente artigo os Sacerdote brasileiro comenta a “miséria dos ricos” que, com a insegurança, vivem em “prisões douradas”, gastando fortunas na sua defesa, de que 10% daria para resolver os problemas sociais que estão na génese das sua má “qualidade de vida” !
Sem querer desmerecer da generosidade de quem promove iniciativas de paz (cimeiras e reuniões de alto nível) e de apoio às vítimas da guerra (ajudas humanitárias), afigura-se-me que é um desperdício inconsequente de recursos e energia, que não são eficazes e nada têm resolvido, apenas servindo como "cuidados paleativos" e para dar protagonismo aos promotores. São mais uma notícia !
Vozes autorizadas como o Papa, o nosso Cardeal e outras vem chamando a atenção que a paz se construirá, investindo no desenvolvimento económico dos povos subdesenvolvidos. Numa recente entrevista um Bispo, numa entrevista televisiva, quando interpelado sobre “onde está Deus, perante o cenário da guerra da Palestina”, deu a resposta certa: “Deus está no coração dos que lutam pela paz; está, certamente, fora dos corações dos que fomentam a guerra”!
A guerra é, portanto, uma questão de cultura; temos vivido, sempre, numa “cultura de lutas” e de guerras e, recentemente alimentadas, artificialmente, pelo “jogo de interesses” disfarçados pela manipulação da opinião e concretizados pelas “estruturas” preparadas para o efeito.
Como conseguiram Hitler, Mussolini, Estaline, Fidel e o Mugabe, o apoio popular que sustentaram os seus regimes ?
Há que ter consciência clara desta realidade para perceber quem são, de facto, os “maus da fita “!
Será esse o primeiro passo para se desmascarar e destruir a “máquina das guerra”, desmantelando o negócio.
Só assim se poderá sonhar, realistamente, em construir a paz, que tanto se apregoa.
Tudo o mais não passa de folclore, para entreter e anestesiar a opinião pública.
MG 20.01.2009
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
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