terça-feira, 27 de janeiro de 2009

AFINAL,...a causa da "crise" !

Finalmente começa a aparecer a público na Comunicação Social, havendo gente qualificada que o vem afirmar, que a tão preocupante CRISE (financeira, com repercussões na economia e, consequentemente, sociais) que se travessa e cujo fim ninguém se atreve a profetizar, resulta da falta de ética dos responsáveis políticos e gestores (de topo), tudo gente que se pressupunha de “alto nível”, super-qualificada !
Já há quem adiante que o problema é do ensino, centrado na preocupação de preparar tecnicamente os chamados “quadros superiores”, sem lhes dar uma preparação humanista, alicerçada num “quadro de valores e princípios” adequado e conveniente.
Há, mesmo, quem tente tirar “dividendos políticos” e “pôr-se em bicos dos pés”, tentando convencer que a mesma vem provar a falência do chamado “capitalismo liberal”, concluindo que o “socialismo totalitário” (vulgo, comunismo) é que era bom e que a “esquerda” é que tinha razão ! Todos o ouvimos nas TVs ! Porém, todos se deveriam lembrar, também, da ética reinante no “bloco soviético”, tão eloquentemente revelada, para quem o não sabia já, após a queda do “muro de Berlim”!

Mas, voltando ao tema, e considerando que a moral (conjunto de normas e regras comportamentais) reflecte uma ética (conjunto de valores e princípios) em que se fundamenta, a verdade é que esta é, por sua vez, o corolário duma “filosofia de vida” que a justifica. As éticas variam tanto, que podem mesmo ser opostas ! Moral, toda a gente diz que tem: já o Al Capone tinha a sua, e todas as máfias têm a sua própria !
Defendo, assim, que o que distingue e valida as leis morais são os princípios e valores em que se fundamentam e que integram a ética que decorre, inevitavelmente da forma como é encarada a vida e é percebido o nosso papel, desde que nascemos: uma concepção materialista ou escatológica.
Esta é a “fronteira” que separa duas concepções opostas ! Logo se argumenta que há muito boa gente que se diz materialista (laica e agnóstica) e que há gente muito pouco recomendável entre os que se dizem religiosos (crentes e praticantes); esta é uma falsa questão que não vamos aprofundar agora, para não alongar e desviar do tema.
A questão é que quem defende que esta vida “são 2 dias” e nada há para lá, que tudo é efémero e termina com a morte e, ainda, confunde felicidade com prazer e gozo, é tentado a querer, pragmaticamente, aproveitar para desfrutar dos bens materiais, “curtindo” tanto quanto consiga ! Não é o que se vê ? Só não vê, quem não quer !
Quem, pelo contrário, considera que há uma outra vida para além da morte, que esta vida no “mundo material” é uma “passagem” a aproveitar para realizar uma missão e um projecto que visa a tal outra, e que considera, também, que a felicidade está na sua realização espiritual, na paz interior, na comunhão e no amor (ágape, o oposto do “amor” que se vende nas novelas “cor-de-rosa”) terá, certamente, um quadro de valores completamente diferente: o importante é “ser”, e não o “ter” !
Tendo a história da humanidade evidenciado que todas as civilizações definharam e se extinguiram quando, deslumbrados e atordoados pelo poder e pelo gozo, abandonaram as suas raízes culturais e descuraram os seus critérios e valores e um estilo de austeridade, é-se levado a concluir que tal está a acontecer com a nossa civilização Ocidental que, desde a Revolução Francesa, tem vindo, com o pretexto de eliminar desvios e abusos inaceitáveis, a descurar e a desvalorizar o que de bom havia nas suas tradições culturais.
Esta é a crise (há muito anunciada !) da Europa, como acabará por ser dos novos “parceiros emergentes” quando se “ocidentalizarem” (no mau sentido) e, abandonando as suas raízes, se deixarem invadir por esta cultura materialista e hedonista.

Um expressivo sintoma desta crise manifesta-se na questão dos “vencimentos chorudos”, como referia já no comentário que esbocei já em Janeiro de 2008, muito antes de estoirar esta crise; achava alguma gente, então, que tal não era problema, e eu afirmava considerar que era “o problema”: tal fenómeno revelava a falta de ética dos beneficiários de tais remunerações ! Limitar-me-ia, portanto, a relembrar o que então referia e que parece concluir-se agora ter, afinal, algum fundamento: comparava-se, o cenário das “desigualdades sociais” de então com as de 1975, frisando que, com tanto socialismo apregoado, a sensibilidade ao problema parece menor, tendo havido uma evolução negativa, escandalosa e chocante, que a cultura materialista instalada depois do “25 de Abril” proporcionou; o resultado foi que o “fosso” entre ricos e pobres aumentou 100 vezes !!
Referia então que considerava que um vencimento de 3.000 €/m seria suficiente para um nível de vida compatível com um “estatuto” de um “quadro superior” (com cerca de 10 anos de actividade e sem funções especiais de chefia ou gestão); dei-me ao cuidado, de então para cá, de auscultar a opinião de variadas “fontes”, amigos e colegas, com experiência actualizada, parecendo-me poder concluir que um valor de 3.500 €/m será já considerado um bom vencimento, havendo um número muito reduzido de colegas que o aufira e, ainda mais reduzido de entidades que o possa proporcionar ! Seguindo o raciocínio então elaborado, é-se levado a concluir que alguém, a nível de “director geral” seria (segundo os critérios vigentes em 1975) suficientemente bem pago se recebesse o dobro: cerca de 7.000 €/m ! Cinquenta vezes mais,…é um roubo e, agora, acontece ! É um escândalo !
Se é perfeitamente normal e razoável que uma família da classe chamada “média alta” viva numa habitação dum valor da ordem dos 250.000 € (cerca de 50.000 c.; bom seria se ninguém vivesse em condições inferiores às correspondentes a um custo de 50.000 € !), sendo aceitável, como extravagância um vivenda de 500.000 €, tudo o que seja a mais (com projectos de Arquitectos de “esquerda” !),…é ostensivamente afrontoso e, agora, acontece ! É um escândalo !
Se é normal e razoável que tal família necessite, para se transportar, de uma viatura de 40.000 € (e, eventualmente, para as pequenas deslocações, de um segundo de 12.000 €), será tolerável que alguém “vidrado” em motores “dê o gosto ao dedo” com uma “máquina” de 60.000 €; ter “bombas” (para ter que andar a 120 Km/h em auto-estrada !) só para ostentação,…é um insulto e, agora, cada vez mais acontece ! É um escândalo !
Podia-se multiplicar os exemplos dos chamados “sinais exteriores de riqueza” ostentados, normalmente, por quem não dispõe de melhores atributos para se afirmar. Não se apercebem, por falta de lucidez, sensibilidade e sentido crítico que dão de si, afinal, uma imagem negativa e despertam nos invejosos sentimentos de descontentamento, se não, de revolta.
Esta é a velha querela dos que dizem não saber distinguir o essencial do supérfluo. A verdade é que as pessoas “ricas” (de bens materiais e de espírito), com classe e nível, mantêm um estilo de vida equilibrado e simples. Os “pobres” (de espírito !) manifestam ostensivamente a triste mentalidade dum “novo-riquismo”, de consumismo desenfreado: o que importa é conseguir forma, a qualquer custo, de poder “viver à grande” !
Li, recentemente, um curioso artigo de um Sacerdote brasileiro, ironizando com a “pobre vida” dos ricos que vivem enjaulados em “gaiolas douradas”, e saem em carros blindados e com “seguranças”, gastando fortunas para se defender dos problemas que se resolveriam se destinassem 10% do que gastam !
Quem tem esta cultura e estes objectivos de vida, age dentro de um “quadro de valores” que justifica qualquer moral: competir para ganhar; o importante é deter poder financeiro para gozar e “curtir” ! É a cultura do “vale tudo “!
A questão é que, como se tem vindo a constatar, esta cultura não é inócua, e a crise actual vem prová-lo.

Acresce, ainda que os recursos do planeta não são infinitos nem ilimitados, não comportando o desperdício decorrente do despesismo desenfreado; começa agora, também, a haver consciência desse facto e da necessidade de promover modelos de “desenvolvimento sustentável”. É uma questão de sobrevivência da humanidade !

É preocupante constatar ser esta a cultura, materialista e hedonista, a dominante nas gerações mais jovens, as da futura classe (pretensiosa, convencida e arrogante !) dirigente, a dos futuros educadores das gerações seguintes. Parece necessário e urgente inverter esta tendência.
Apetece, portanto, dizer que esta crise terá sido útil, se der para perceber as causas e corrigir os erros civilizacionais desta tal de “modernidade” !


MG 26.01.2009

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