Pela oportunidade do tema, incluo o texto abaixo, escrito em tempos e que relembro por muito se falar (para propaganda política !) nos apoios às PMEs para debelar o problema do desemprego.
A questão que colocava no dito texto é de que há um peso excessivo na nossa economia de PMEs de utilidade reduzida ou nula, na economia real.
Considero que a crise actual vai, fatalmente, eliminar o que é supérfulo e não haverá meio, razoavel e sensato, de salvar essas empresas. Sanear a economia poderá ser um proveito decorrente desta enorme crise, bem previsível afinal !
A solução passará, na minha opinião, pela sua reconversão.
Anexo o texto de 14.09.2007.
FALAR VERDADE: o “peso” do Comércio
Defendia o Dr. Lobo Xavier, no último debate da “quadratura-do-círculo”, que os Políticos devem, para terem credibilidade, falar SEMPRE verdade. Não podíamos estar mais de acordo ! Foi tal referido a propósito de o Estado ter que encetar políticas que equilibrem os objectivos de estabilidade das Finanças Públicas, com desenvolvimento económico e de satisfação de objectivos sociais, num contexto duma situação difícil na Europa (e no Mundo em geral) e num ambiente de crise que se sente no País.
Ora, para “falar verdade”, afigura-se-me que esta crise era previsível há muito tempo, face à débil estrutura do nosso tecido empresarial e composição dos sectores de actividade dos nossos agentes económicos. Fui despertado para esta questão com o seguinte episódio, história real que passo a relatar apenas para ajudar a situar o problema.
Um amigo meu de infância, filho de uma abastada família burguesa (classe “média-alta”), não foi educado e estimulado a fazer nada de útil; par além de ter “boas maneiras”, ser jovial e gentil, sempre simpático, não “dava duas para a caixa”; não que fosse menos dotado: era simplesmente preguiçoso e mimado; nunca nada lhe faltava ! Não estou certo que tenha feito a 4ª Classe (como então se designava o exame de “educação primária”) e, se o fez, não terá ido muito mais longe.
Abeirando-se a idade de ter que assumir responsabilidades profissionais e familiares, como não tinha quaisquer habilitações e não sabia fazer nada, foi a questão resolvida pelo Pai,… abrindo um estabelecimento comercial com boa localização, que lhe proporcionasse adequada independência financeira. Assim surgiu mais um “comerciante” e mais uma loja, igual a mais 4 ou 5 do mesmo ramo nas redondezas, e igual a mais milhares já existentes na Cidade !
Ou seja: quem não sabe nada, e não sabe fazer nada, e não tem capacidade de introduzir qualquer “mais-valia” para a economia,… abre uma loja, mesmo que a mesma não venha introduzir o mínimo “valor acrescentado” ao mercado, nesse sector !
O facilitismo com que tal ocorreu deixou-me, então, a pensar, estranhando a aparente não existência de regras ou mecanismos (estilo “números-clausos” !) que disciplinassem a nossa economia. Bastaria, talvez, que houvesse entidades orientadoras e estímulos para as actividades úteis! Analisando, mais atentamente, o panorama da nossa economia, apercebi-me que uma maioria apreciável da população activa se dedicava a uma qualquer actividade comercial.
Apercebi-me, desde logo, da fragilidade da nossa economia. Afigurava-se-me ser admissível que o “circuito económico” dos bens, desde o produtor até ao consumidor, comportasse
Unidades Armazens Comércio CLIENTE
de »Transporte » em » retalho » final
Produção grosso (proximidade)
parecendo desejável que os vários intervenientes fossem dimensionados para corresponder ao objectivo: fornecer o produto em condições de qualidade e preço aceitáveis. A isto se deveria chamar “rentabilidade” e “competitividade”.
O que se constatava era que o grosso da população, para além da rural (ainda existente na época e com um “peso” apreciável) se dedicava ao “pequeno comércio”. Tal situação só era sustentável, pela prática de “margens de comercialização” exageradíssimas: o produto era fornecido ao consumidor com preços muito superiores ao custo de produção e todos sabemos que assim tem mantido. Tal só era sustentável num regime proteccionista, sem concorrência efectiva: cada ramo de actividade comercial constituía o seu próprio “lobby”, e o “Zé pagante” ia gemendo; cada agente inserido no ciclo ia fazendo repercutir nos seus preços quaisquer alterações nos mercados e neste equilíbrio artificial lá se ia vivendo ! Outro factor importante de sustentabilidade deste estado de coisas era o Ultramar Português, proporcionando um amplo mercado preferencial e contribuindo, de forma muito significativa para o “produto”, qual “balão de oxigénio” para aguentar a frágil economia do Continente.
Com a abolição das fronteiras, a abertura ao Mercado Comum e a consequente concorrência internacional, agravado pela migração da população rural (a maioria com poucas habilitações) para as cidades, esta situação tornou-se insustentável.
Estou em crer que as referidas alterações da conjuntura eram inevitáveis e, mesmo, desejáveis: o País não se poderia manter isolado, como um “sistema fechado”. O que considero grave é que os responsáveis por tais decisões e os demais intervenientes no processo, desde então até ao presente, nunca tenham referido este perigo e não tenham alertado o País para a necessidade urgente de se reestruturar. Ou será que não sabiam ? Ou que não falaram verdade ?!
No caso Português, o problema foi apreciavelmente agravado pela “exemplar descolonização”, tendo-se instalado uma mole de famílias que, na sua maioria, veio acentuar o desequilíbrio do nosso tecido empresarial: bastará ver a quantidade de cafés e tascas que proliferaram por todo o lado.
Se a crise era já previsível há mais de 50 anos, tornou-se mais evidente com as ocorrências referidas, passando a sentir-se fortemente com o surgimento das novas “economias emergentes” da Ásia. Nunca ouvi os Governantes, Economistas, Jornalistas ou Comentadores alertar para esta situação, sensibilizando os “agentes económicos” para reduzir o número de micro-empresas do chamado “comércio tradicional”, se reconverterem para actuar em novas áreas, usando a criatividade tão característica dos portugueses, para inovar e, assim, se prepararem para um mercado aberto, mais competitivo e concorrencial.
Assistimos a um espectáculo desolador de falências e fecho de estabelecimentos por todo o lado. As cidades vão ficando desertas e cada vez mais inseguras ! O desemprego neste sector vai aumentar, com todas as suas consequências sociais. Tenho imensa pena dessas famílias, embora considere que andaram distraídos, vivendo todo este tempo “à sombra da bananeira”. Não critico o meu amigo ou o Pai: era a cultura empresarial da época ! A situação é grave e irreversível; há que mudar as mentalidades e competências.
Mas, tal só será possível, se todos falarem verdade.
MG 14.09.2007
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário