sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Será a Fé um "dom" ?

Será a Fé um “dom” ?

É frequente ouvir-se referir a existência de uns “privilegiados” que tiveram o “dom da fé”. A fé seria, portanto, algo de ocorrência aleatória, dificilmente acessível, distribuída de forma arbitrária por um Deus discricionário e selectivo ! Lá se vai a “justiça divina” !
Se a tal concepção corresponde uma atitude de veneração pelos “santos” (os tais “escolhidos”), outras vezes tem a mesma um tom depreciativo e traduz sempre a convicção de que tal “dom” não é para o “comum dos mortais”, que têm que resolver os problemas reais do dia-a-dia.

Tal concepção, que sempre rejeitei por implicar uma concepção de um Deus injusto e arbitrário, revela também uma percepção deturpada do que seja ter fé. Para quem assim pensa, ter fé traduz uma atitude resignada de aceitação passiva de qualquer coisa que "cai do céu" e que transcende a nossa vontade e compreensão: ter fé será acreditar, ingenuamente, no irracional ! É um atentado à inteligência, ou melhor, ao intelecto !
Este será o primeiro preconceito a ultrapassar: ter fé é, pelo contrário, ter a certeza, é estar profundamente (e racionalmente) convicto da “verdade em que se acredita”. Tal implica ter convicções claras e esclarecidas alicerçadas num profundo e profícuo trabalho intelectual de estudo e pesquisa.
A fé verdadeira, que nada tem a ver com superstição, não deverá ser, portanto, uma “fezada” ou uma “crendice” duns pobres coitados, “pobres de espírito” ! Não me estou a referir à “fé do cavador”, que não menosprezo e é, muitas vezes, bem menos superficial e mais séria que a de muita gente dita “civilizada” e culta; cada um deverá ter uma fé esclarecida e consistente, ao nível das suas capacidades e formação intelectual; o caricato e lamentável é haver gente muito “letrada” e elevada formação académica, que se contenta em continuar com a sua formação religiosa a nível da catequese infantil !

A fé é, efectivamente, um “dom”, como todos os outros dons que Deus prodigamente disponibilizou para dotar a “espécie humana”: dons materiais (capacidades físicas, mentais, bens variados, etc.), e espirituais (sensibilidade, criatividade e imaginação, discernimento e raciocínio lógico, diversa vocações, etc.); o primeiro dom, é o da vida, especialmente se vivida “em abundância” (de virtudes) !
A todos Deus dá os “talentos” necessários e o que nos é pedido é que os “façamos render”, numa desejável evolução pessoal e ao serviço dos outros; cada um deverá dar o “seu máximo”, sem se contentar com um relativismo medíocre de se comparar com o “vizinho do lado”. Para os Cristãos, o único “modelo” de referência é Cristo; por isso, o nosso esforço de ascese não terá limite !
À semelhança das outras capacidades, também a fé se pode consolidar; é um caminho a percorrer; é uma escalada a efectuar, determinadamente, para nos aproximarmos do “cume” que se deseja alcançar. Ninguém nasce “campeão olímpico” e admitindo que todas as potencialidades ocorrem segundo o que se chama em estatística de “distribuição normal”, representada pela “curva de Gauss”, a maioria dos indivíduos é capaz de alcançar as “marcas” normais, se não se deixar ficar a “engordar no sofá”; tive a experiencia de verificar que todos os alunos podem tirar 15 valores (marca normal), mesmo os menos dotados, mas esforçados (marrões !), como os mais “reguilas”, com pouco esforço. Apenas os reguilas e, simultaneamente, trabalhadores e esforçados atingiam ou superavam a “fasquia” dos 18 ! O mesmo acontece com a fé que se alimenta pelo estudo e reflexão e por uma atitude perseverante de coerência de vida e pela consequente prática das virtudes (de que hoje não é moda falar !).

Mas constata-se haver muita gente que diz não ter fé e não ter necessidade da religião !
Creio bem que a falta de fé de muitos resulta da imagem redutora que transmitimos de uma religiosidade formalista, ritualista, infantil e inconsequente; constata-se, frequentemente, haver gente dita sem fé com comportamentos e estilo de vida mais construtivos que os de outros que se dizem crentes, vivendo de forma impensada e incoerente com princípios que dizem defender ! É o seu mau testemunho que leva os primeiros a considerar que não tem necessidade de tal religiosidade, não se apercebendo que uma “religião séria” fornece o alicerce e fundamento filosófico duma ética (conjunto de princípios e valores) de que decorre a moral (conjunto de regras) que, afinal, consideram a mais adequada e pretendem defender e que, sem a tal fundamentação, não conseguem transmitir às gerações seguintes imbuídas, em grande parte, pela influencia duma sugestiva cultura materialista e hedonista.
Grande responsabilidade, portanto, dos “crentes”:
“ai de vós, se fordes motivo de escândalo” !

Sou levado, assim, a concluir que, sendo a fé um dom acessível a todos, só não tem fé, quem não está receptivo ou motivado e, portanto, não quer !
E pode não querer ou por inércia ou ignorância (quem ande distraído ou ofuscado pelo “ruído” duma civilização massificada, alimentada por uma “máquina” deliberadamente organizada para manter as gentes anestesiadas e distraídas - dantes dizia-se que eram os “3 efes” e, agora, é ainda pior !), ou por casmurrice (variante negativa de “teimosia”, de quem se mantém obstinada por opções ideológicas “desviantes”, cujos resultados estão bem à vista, infelizmente !) ou, o que é mais grave, na defesa de “interesses” (inconfessados, geralmente com “bandeiras” políticas a disfarçar reais interesses financeiros !).
Uma coisa se me afigura ser certa: a todos Deus dá “oportunidades” ao longo da vida; nem poderia ser doutra forma ! Cada qual interprete os sinais e tire as devidas ilações. Os “ramos” que não derem fruto, terão o destino que escolheram; e isso será justo !

Grande lição de verdadeira fé, a da narrativa do Evangelho de Domingo passado: os amigos do paralítico, empenhados em o lavar a Cristo para o curar, não hesitaram face às dificuldades que impediam de o fazer chegar perto; certos que Cristo o curaria (fé !) e determinados, içaram-no para o telhado, fizeram uma abertura e desceram a maca suspensa com cordas. Deve ter sido uma cena espantosa !
Como o Mundo seria diferente se, perante as adversidades, tivéssemos a fé do tamanho do “grão de mostarda” e fossemos perseverantes (variante positiva da tal teimosia) e “removêssemos montanhas” e nunca desistíssemos do projecto de levar todos os “doentes” ao único “caminho de cura” efectiva !



MG 27.02.2009

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