domingo, 29 de março de 2009

Velha, era a tua Tia !

Velha era a tua Tia !

I- ALERTA URGENTE

Com aquela exclamação respondi eu, há alguns dias, a um familiar (próximo e amigo), numa troca de “mails” em que ele me tentava convencer, face às minhas “rezinguisses” sobre o que entendo serem os disparates da chamada “modernidade”, de que estamos já velhos e não somos nunca os “detentores da verdade” e temos de aceitar a “cultura” dos jovens, sem o que não teria havido progresso !
Àquela minha exclamação acrescentei, argumentando, as razões porque considero que o por si referido não passava de “meias-verdades” e “frases feitas” para desculpabilizar e consolar a malta da minha anestesiada geração.
Volto ao tema não para “ter razão”, mas para tentar dar alguma contribuição para um alerta que se me afigura urgente e relevante.

Se é bem verdade que ninguém é “dono da verdade”, muito menos quem é inexperiente e, se calhar, nunca pensou a sério nos assuntos; a “verdade”, só de Deus (por definição)!
O normal dantes (antes de haver TV) era que a idade acrescentava experiência e sabedoria; era sempre ouvido e seguido o “conselho de anciãos”. Agora, modernamente e depois da massificação cultural provocada pela TV (para a qual as gentes não estavam preparadas) ninguém, com honrosas excepções, sabe nada de nada e os velhos já não tem, efectivamente, nada de jeito a transmitir; há, no entanto e efectivamente, excepções: os que se não deixam levar pela máquina e tenha o hábito de “parar para pensar” observando, de forma atenta, lúcida e crítica o que se passa no Mundo, a que se chama “modernidade” progresso e “evolução” e que o tempo tem vindo a provar ser uma regressão !
Sempre se disse que “a ignorância é atrevida”, mas se considerou que a irreverência dos novos foi sempre útil para “agitar as águas” (às vezes chocas !), obrigando os velhos a repensar , se têm discernimento e são capazes; engolir simplesmente o que os novos querem impor (só porque são inovadores), de forma acrítica, tem provado ser arriscado e insensato.

Quanto à evolução da humanidade (o “humano” é o único ser capaz de evoluir intelectualmente, de ter criatividade e discernimento - todas as outras espécies fazem hoje o que sempre fizeram ao longo dos milénios, evoluindo apenas na adaptação à Natureza) há que referir que a mesma resultou sempre de alguma “inspiração” (do espírito !) e muita “transpiração”; a inspiração acontece depois de muito estudo e, principalmente, de muita reflexão e meditação. Ou seja, acontece com a maturidade que aumenta com o decorrer dos anos; do saber e experiência resulta a sabedoria que, afinal, os mais novos respeitam e aceitam, sempre que os velhos têm a "autoridade efectiva" que lhes advém da competência e espírito de serviço. Não é preciso impor; resulta naturalmente.
Não nego que houve progresso nalguns aspectos, mas não se pode fechar os olhos ao retrocesso também ocorrido noutros, alguns essenciais. Houve grandes mudanças, para o bem e para o mal, e temos de ter disso consciência para distinguir “o trigo do joio” e não deixar perder o que era essencial, apenas para não sermos apelidados de retrógrados e “caretas”.

O mal é quando os velhos abdicam e “vão na onda”, ou se infantilizam tanto como os jovens; por comodismo e incompetência, deixam correr ! Perderam a autoridade e essa é a causa da crise da sociedade actual.
Há já algum tempo escrevinhei um “considerando” que designei com o título de “a verdadeira geração rasca”, em que manifestava a minha surpresa e preocupação pela constatação de que a dita (rasca) não fora capaz de manter e transmitir a “sabedoria” herdada e o saber entretanto adquirido, deixando perder os princípios e valores da ética em que se fundamentava a moral que defendiam. Tal “escrito” referia, concretamente, as questões da “sexualidade humana”, a propósito da minha vivencia na campanha “em defesa da vida”, aquando do referendo sobre o aborto. Não me vou repetir, mas a minha constatação foi de que a minha geração, não foi capaz de conservar e transmitir os valores essenciais que alicerçavam a nossa civilização. Por isso “geração rasca” foi a nossa !

Valores bons ? Valores maus ?
Como em tudo o resto, há o “minério e a ganga”. Da cultura herdada pela tradição e que facilmente se transmitia entre gerações, de forma incontestada, havia aspectos irrelevantes ou, mesmo, deploráveis e, até, contraditórios que era útil ultrapassar; o erro está no exagero, como sempre, renegando tudo com o pretexto de que é retrógrado e antiquado, sem critério crítico, deixando perder por arrasto, o que era importante ou essencial. Dantes era possível manter tradições de forma incontestada, só porque sim ! Face à evolução cultural teria competido às elites intelectuais acompanhar a evolução das mentalidades, analisar aprofundadamente as respectivas consequências previsíveis e propor, de forma fundamentada critérios de avaliação das questões levantadas.
A árvore avalia-se pelos frutos !
E os frutos da “permissividade e facilitismo” (conforme artigo então publicado num semanário) parecem estar bem à vista.

II- AS MUDANÇAS RADICAIS

Já então referia e frisava que tal “demissão” era, de certa forma, compreensível e desculpável: efectivamente, nenhuma outra geração, antes da nossa (e, possivelmente, no futuro) fora sujeita a um choque e impacto de mudanças tão radicais !

Na verdade, sou do tempo em que da geração dos nossos Pais, as meninas mais ilustradas e “de boas famílias”, limitavam a sua cultura a “tocar piano e falar Francês”; nessa época apareceram as primeiras “licenciadas”.
Sou do tempo, também, em que nas camadas com maior “formação académica” (o que é diferente de “cultura” !) se aprendia predominantemente Francês e, apenas, uns rudimentos de Inglês o que dava, perfeitamente, para as nossas solicitações profissionais e culturais; nesse meu tempo, a maioria dos alunos do Ensino Liceal eram rapazes e, nas Universidades, seriam uns 30% de raparigas havendo cursos, como o meu, raramente frequentados por alunas; na época em que estive ligado à minha Faculdade tinha 3 ou 4 alunas, em turmas de 35 ! Refiro isto, não numa atitude anti-feminista, mas apenas para realçar as mudanças ocorridas.
Acho de interesse indiscutível ( e não o afirmo para ser simpático ou “politicamente correcto”) que as mulheres tenham uma cultura e formação de nível universitário; tive a enriquecedora experiencia de integrar o OUP (Orfeão Universitário do Porto), de que detenho recordações inesquecíveis e onde adquiri apreciável experiencia de vida, sendo que foi o primeiro organismo académico a integrar raparigas. A questão que considero dever pôr-se e se põe já nos Países evoluídos, será que as mulheres terão que fazer uma opção consciente entre a sua função (essencial e insubstituível) de Mães e “donas de casa” ou de “executivas de sucesso”; tentar compatibilizar as duas coisas é difícil e, frequentemente, impossível e o resultado está à vista, sendo as maiores vítimas as crianças que a sociedade moderna, cínica e hipocritamente, diz querer proteger.
Mas isto é outro tema, talvez um dos mais importantes, desta “revolução silenciosa” a que foi sujeita esta geração !

Outros factores de mudança confrontaram a minha geração, perturbada com o fascínio da chamada “modernidade”.
Os telefones entraram no quotidiano das nossas casa há 60 anos; há 50 entra a televisão que se antevia como um maravilhoso instrumento de informação (!), cultura (!!) e entretenimento (!!!); vão já 40 que, treinados com a “régua de cálculo” e as “Facit”, fomos dos primeiros a dispor de uma “calculadora digital” (electrónica) e a integrar uma equipa que elaborava os primeiros “programas informáticos” (em Fortran) para os seus projectos (conseguia-se fazer em segundos o que até aí ocupava 60 “calculadores” e “desenhadores” durante meses; começou a origem do “desemprego” !
A geração que dominava as novas técnicas passou a ter relevância sobre a detentora da experiencia; inventaram-se os “Yuppies”, e os mais antigos foram superados e começaram a entrar em stress !
Com a informática e as “novas tecnologias” mudou também a linguagem ! Passou a ser mais útil dominar o Inglês que o Francês, começando a ser moda, para atrapalhar ainda mais a minha gente, introduzir no vocabulário neologismos, de que passo, para "alavancar", a “elencar” alguns exemplos: management, marketing, etc. e, mais recentemente, deletar e printar !). E a nossa geração começou a sentir-se descalça !
Para facilitar mais a vida aparecem os telemóveis (nunca foi tão difícil comunicar como agora !), os satélites, a NET, o GPS ! Maravilhas! Há muita gente da minha geração que se recusa a aderir e,…demite-se das suas responsabilidades !

As auto-estradas e os transportes aéreos encurtaram distancias e, com as novas facilidades de transporte e comunicação, a consequente e inevitável “globalização” fez mudar hábitos e culturas; a minha geração ficou atordoada e indefesa e incapaz, por comodismo ou preguiça, considerou mais simpático ir na enxurrada e alinhar no “facilitismo”: malta “da corda”!
Para ser simpática e porreirinha, demitiu-se e delegou !

Para cúmulo e a agravar este “cenário” de mudança, vem as “migrações” descontroladas e sem critério, com os decorrentes problemas sociais, o aumento da criminalidade, a insegurança.
O “linguajar” ainda evolui mais e, agora, é só fazer snorkeling, organizar um brunch e, acima de tudo, dedicar-se ao carjacking, que é o que está a dar !

Finalmente, somos ainda confrontados, para culminar, com o recente flagelo da “guerra sem regras” ou da “guerra sem rosto” que é o terrorismo ! Guerra cobarde, também potenciada pelas “novas tecnologias” que permitem que alguém “virtual” ponha em risco ou destrua pessoas e bens numa escala desmedida e desproporcionada às suas reais capacidades !
Este é, portanto e sem pretender ser exaustivo, o cenário de mudança com que a minha geração foi confrontada. A incerteza e a imprevisibilidade instalam um clima de angustia !

O drama agrava-se, porém, dado que nesta nova geração (todos licenciados e mestrados e, até, alguns “doutorados”!) formados à pressão, muitos mal sabem ler ou escrever ! Para armar e impressionar lançam a moda de vocábulos de utilização inadequada ou despropositada e excessiva, “implementando” uma nova moda, passando tudo a ser “redutor”, ou “redundante”, “recorrente” e “paradigmático”, à mistura com “siglas” que tornam as mensagens ininteligíveis ! E a malta, siderada, rendeu-se, completamente !
A falta de senso vai ao ponto de, para se agradar à opinião pública, galardoar com o estatuto de “doutor honoris causa” quem se distingue, com mérito indiscutível, numa actividade a que se tinha acesso há 40 anos, com o antigo 5º ano (actual 9º) e em que as “vedetas” mais badaladas mal sabem falar ! Perdeu-se o senso !

Mais ainda: nesta geração de “quadros superiores” e líderes, se mal preparados (alguns) do ponto de vista técnico, a grande maioria não tem qualquer formação humanista. Muitos, não a tendo de nascença, não a receberam nas Universidades e, portanto, não a transmitem aos seguintes (alunos, colaboradores, subordinados e, o que é mais preocupante, …aos filhos !); não sabem e nem sabem que não sabem !
Naturalmente que, com lideranças sem formação humanista, perderam-se os princípios e valores que integram a tal de ética e cai-se no “vale tudo”: imbuídos duma mentalidade competitiva e preocupados como o chamado “sucesso” (de “curto prazo”), fundamentada numa cultura materialista e hedonista, em que se confunde felicidade com satisfação de prazeres primários, perderam-se os “critérios” duma moral bolorenta e facilmente se deixam seduzir por comportamentos censuráveis.
Entende-se conveniente deixar claro que há nesta geração jovem gente boa, de elevada qualidade técnica e formação humana; apenas é uma percentagem diminuta e, aparentemente, não articulada, pelo que acaba por não ter um “peso” determinante no mundo da economia e da política nem, sequer, na vida social e cultural, não tendo impacto na “comunicação social”; viu-se a forma como correram os debates a propósito da “homofobia”!

Todos se começam a aperceber que é assim, que há uma “crise de cultura” e que tal se reflecte nos mais diversos aspectos do quotidiano actual da vida moderna, gerida por uma geração (repito, com louváveis excepções) de gente incompetente, ambiciosa, gananciosa e,… emproada e arrogante !

III- MUDANÇA DE PARADIGMA

Há muito que era previsível e se previa esta famigerada “crise”.
A crise começa por uma “economia virtual” que redonda numa crise financeira, transformando-se numa “crise económica” (da economia real), com evidentes e incalculáveis repercussões numa “crise social”; tudo resultou duma “crise de valores”; é uma “crise cultural”, como venho alertando há algum tempo ! Já começa, felizmente, toda a gente a falar na importância da ponderação da correlação do binómio “ética e política” !

A solução não estará, como é evidente, em desmobilizar ou despromover os jovens. Creio que a mesma passará por duas vertentes: a aposta (urgente) na formação humanista da geração jovem e na valorização efectiva do insubstituível papel da geração mais velha.

Isto nem sequer é novidade ! Instituições de referência já o faziam há muito.
Assim era na “instituição castrense”, onde me apercebi que toda a estrutura do “staff”(!) do General Comandante da Região Militar tinha, a orientar os departamentos estratégicos “, coronéis na reserva”-“raposas velhas” experientes e sabedoras e, ainda capazes e válidas ! Os novos, os Capitães, eram os “operacionais” que, no terreno, realizavam as tarefas que exigiam vigor físico, adquirindo experiencia de vida e de técnica para ir ascendendo aos postos mais elevados, conforme as suas apetências. Era o que seria lógico e natural !
Também na “instituição eclesial” os Bispos dispõem de um “conselho” de Cónegos com funções semelhantes.
Isto seria o que determinaria o bom-senso, mas esta lógica foi pervertida pelas razões referidas do “choque tecnológico” e consequente globalização.

Creio que seria importante e urgente tomar consciência da importância do aproveitamento do capital de experiencia e sabedoria acumulados pela geração dos Avós, frequentemente remetida para papel subserviente (humilde e resignada) de motorista dos Netos e que, assim distraídos, ficam convencidos que estão a dar uma grande ajuda à sociedade e à civilização !

Esta crise poderá ter sido útil em muitos aspectos, se ajudar a corrigir erros passados e a acordar quem anda a dormir para que perceber o que esteve na sua origem e levar a que disso se tome consciência e se aja em consequência: há que alertar ao velhos para que se não demitam, preguiçosamente, das suas responsabilidades efectivas e ponham a render os seus talentos; haverá que, paralelamente, sensibilizar os novos para que se apercebam das suas “incontornáveis” limitações e, consequentemente, estejam atentos e receptivos aos benefícios da rentabilização dos contributos dos velhos .
Esta “receita” parece evidente, mas não é o que está a ser adoptado.
Esta é que será uma verdadeira “mudança de paradigma” !

MG 25.03.2009

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