Tendo visitado, há cerca de um ano, Buenos Aires e Montevideo fiquei surpreendido com a profusa proliferação de recordações, desde cartazes a T-shirts, com a emblemática e sobejamente conhecida fotografia do “Ché Guevara”, evidenciando que a sua memória estava, ou era mantida, ainda bem viva ! Fiquei impressionado, tanto mais quanto tal culto estava em aparente contradição, não só com o ar moderno, bem europeu, destas duas cidades, mas com o “estilo de vida” bem consumista duma parte apreciável das suas gentes com quem nos cruzávamos nas animadas zonas de intenso comércio ou desfrutando das suas atractivas esplanadas, sempre repletas e cheias de animação !
Julgava eu que este herói dos anos 60, de nome Ernesto, nascido na Argentina em 1928 (contemporâneo, apenas cerca de onze anos mais velho que eu) e símbolo da “guerrilha armada” (que protagonizou em Cuba entre 1954 até levar ao poder Fidel Castro em 1959, em África e, a partir de 1965, na Bolívia onde acabaria por morrer em 1967), ícone de jovens revolucionários desta época de generosa e inocente ingenuidade política (e com a adrenalina de “ser do contra”!), isto no auge do “impero soviético” e, portanto, anterior ao seu declínio e à revelação da sua realidade após a queda do “muro de Berlim”, era uma recordação do passado, respeitável e digna de registo para a história, pela sua inegável generosidade, mas completamente ultrapassada pela experiencia efectiva dos resultados registados ao longo dos tempos recentes. Daí a minha surpresa.
Foi, portanto, com interesse e curiosidade que considerei conveniente assistir aos filmes biográficos que via anunciados, na expectativa de perceber o que revelavam de novo que pudesse justificar a minha constatação atrás referida.
Começo por realçar que gostei de assistir. Trata-se, por um lado, de um trabalho cinematográfico de inegável qualidade, com uma magnífica realização e óptimo desempenho dos actores principais. Tudo parece ter sido estudado com o maior cuidado para atingir um nível apreciável e um elevado impacto no espectador; a escolha das cenas, dos “grandes planos”, das sequências e a sua interacção com a “banda sonora”, conferem um clima de dramatismo envolvente. Por outro, parece um trabalho sério, equilibrado, deixando antever, para o observador atento e imparcial, os aspectos que revelam os erros e contradições deste personagem que justificam esta reflexão. Considero, não só, que vale a pena, mas até, que é desejável ver o filme.
É fácil que esta figura quase lendária, despertando a imaginação e entusiasmo do espírito irrequieto e inconformista dos jovens, qual Sandokan dos tempos modernos, figura selvagem, romântica e revolucionária, na defesa dos fracos e oprimidos, à semelhança do Zé do Telhado ou do Ali-Bábá, mobilizasse e arrastasse quem não tenha ainda a maturidade e sabedoria que a experiencia da vida revela; é, portanto, conveniente e importante observar e analisar os factos que a história documenta e que o filme vem evidenciar.
Que motivação moveu este médico, nascido numa família da burguesia “média alta”, fragilizado por uma asma crónica, a abandonar a sua carreira profissional e a sua vida familiar para se tornar guerrilheiro ? Estou em crer que ele próprio esteve convencido sempre que a justeza da sua causa, a luta contra as injustiças sociais, as desigualdades, a miséria de muitos, era bandeira suficiente para a sua dedicação ! Considero indesmentível o seu exemplo de dedicação e generosidade; é alguém que foi tão coerente que deu a vida pelas suas convicções: merece inegável respeito e admiração. É uma figura incontornável, como agora é moda dizer, na história não só da América Latina, mas da evolução da sensibilidade social da civilização moderna.
Entendo, no entanto, que cometeu três erros essenciais, perfeitamente compreensíveis, embora, dentro do estado da cultura política da época.
O primeiro e o mais grave, foi não perceber que se não conquista a paz e a justiça pela violência, mas sim pela compaixão e pelo amor, proposta pela qual Cristo, o verdadeiro “revolucionário inovador”, veio dar a vida há dois mil anos. Ele estava tão convencido, que se afastou de Fidel quando lhe era proporcionado o “bem bom” duma situação de destaque e de poder: era o “el Comandante” ! Não podia adivinhar, antes da influencia globalizante das novas tecnologias e dos modernos meios de comunicação, e não teve inteligência para intuir, o que a história veio a demonstrar e que agora se sente com particular aquidade: que as “guerras e guerrinhas” desencadeadas pelos sucessivos “ismos” nada viriam a resolver, de facto ! As lutas pelas “conquistas dos direitos”, promovidas por “estruturas” devidamente organizadas e alimentadas pela maioria da chamada “comunicação social”, nada lograram: os “ambientalistas” agitam a opinião pública com as suas bandeiras contra o “mundo capitalista”, encobrindo a escandalosa poluição do “paraíso soviético”; nunca houve tanta guerra e tão cruel, como agora em sintonia com a violência de tantas manifestações ditas “pacifistas”; as mulheres, em grande percentagem mais infeliz que nunca, são vítimas das perversidades de pseudo-igualdades insensatas dum “feminismo” acrítico; nunca os estudantes tiveram ensino de tão baixa qualidade e perspectivas tão preocupantes de ocupação digna e perspectivas de evolução; nunca os trabalhadores tiveram tais níveis de desemprego e de precariedade de trabalho; nunca foram tão gritantes, como agora, numa sociedade que se afirma predominantemente socialista, as desigualdades sociais; nunca houve tanta miséria nos Países sub-desenvolvidos; nunca houve tanta violência e insegurança, etc., etc.! Nenhum destes problemas se resolverão pela “luta armada”, que só serve par alimentar o “negócio da guerra” ! Ele não percebeu !
O segundo, resultou de julgar que o “bloco soviético” apoiava desinteressadamente a sua luta. Já se sabia (e o filme também mostra) que tal não iria acontecer, e ele não se apercebeu ! Foi evidente a sua decepção e consequente afastamento de Fidel !
O terceiro terá sido o de, apesar do já ocorrido, não ter ficado para assistir à evolução e ter persistido nos erros anteriores, desencadeando a “luta armada” na Bolívia, com o apoio do partido Comunista, contra o regime imperialista e capitalista lá instalado, quando acabou, afinal, por enfrentar o loby dos “senhores da guerra” do bloco ocidental, e abandonado pelos do bloco soviético ! Arrastou os seus homens para um suicídio colectivo, inconsequente e, encurralado, acaba por ser detido já só.
Outros erros estratégicos e tácticos terá cometido, mas os referidos terão sido os mais relevantes. Outro aspecto digno de referencia é o das suas incongruências.
Declarado defensor dos humildes e fracos, gostava de ter poder e estar na primeira linha e ser “o chefe” incontestado e incontestável, o que é evidente ao longo do seu percurso ! O “justiceiro” fez, frequentemente, “justiça pelas próprias mãos”, com julgamentos sumários, o que lhe mereceu a designação de “assassino” ! No exercício do poder, na sua esfera de influencia, era um ditador prepotente ! Os seus homens seguiam-no por fanática e acrítica “devoção”,… ou por medo ! Com uma ética materialista, tinha a “sua moral”, com as suas regras, que impunha autoritariamente, não admitindo contestação !
Sendo asmático, o que o limitava nas suas capacidades físicas e comprometia a sua acção e autonomia, andava sempre pendurado no charuto, o que não deixava de ser uma forma bem burguesa e exibicionista de afirmar a sua “liderança” ! Parecia ser um homem permeável aos vícios.
Tendo assumido compromissos familiares, com cinco filhos, tudo renega e abandona para se entregar à “sua luta”. Na defesa espectacular dos desvalidos, deixou desprotegidos os que tinha a responsabilidade directa de tratar e acompanhar. Não se me afigura tal revelar muito senso !
Enfim ! Refiro, apenas, sem aprofundar mais, os que mais me impressionaram. Mais me pareceu que as suas contraditórias opções, de um menino frágil e mimado, terão resultado de uma necessidade de libertação e de afirmação pessoal afigurando-se-me que disso não terá tido consciência agindo, com aparente generosidade e total entrega. Não seria justo retirar esse mérito, que merece ser reconhecido. Mas mais não ! Não ataco a sua figura e o seu papel; apenas não aprovo, mas aceito no contexto da época.
Herói, mas não “modelo” a seguir ! Muito menos, agora !
Por isso, e voltando ao tema, me deixa estupefacto a aceitação nos tempos actuais, quase religiosa, deste “ídolo messiânico”, que só entendo por manipulação das forças políticas que não tem melhores “referencias” para exibir !
Lá, como cá ! E, cá como lá, também se exibem os “ícones” da esquerda, os Zeca Afonso e Fanhais, que também não perceberam quanto estavam a ser usados ! Ocorre-me perguntar onde estão os jovens do Maio de 68, e o que se resultou da sua “luta” ?
Há dois dias cruzei com um carro publicitário exibindo um grande cartaz que afirmava ser “urgente retomar o RUMO de ABRIL”! Passados 35 anos, e vistos os resultados em todos os domínios (económico, político, social, etc); depois de se ter passado pela guerrilha e terrorismo do “11 de Março”, da tentativa de tomada de poder ditatorial das forças da “esquerda” de então, de se ver as “amplas liberdades” proporcionadas pelo COPCON do Otelo (o “ché português”!), da “descolonização exemplar” para integrar África na “esfera soviética” e do seu resultado, …agora, a esquerda actual, que não tem desculpa, porque se sabe tudo já sobre o “imperialismo soviético”, vem tentar enganar as gentes, manipulando a tal “comunicação social”, beneficiando das liberdades existentes para o bem e para o mal ?
Ontem, nos desfiles e manifestações em Lisboa, lá andava gente exibindo o “retrato do ídolo”!
Ídolo de quem ? Da mulher e dos filhos não, certamente ! Se algum o tivesse como tal e lhe seguisse o “modelo”, seria, certamente, sobejamente conhecido e badalado pelos agitadores da esquerda actual. Estarão bem ? Estarão mal ? Serão ricos, como os avós, ou… revoltados por terem sido abandonados ? Ninguém sabe, nem se interessa ! Talvez não seja politicamente conveniente saber !
Chega de tentarem fazer de nós estúpidos !
Nada se resolverá, nunca, pela violência; a solução resultará da pedagogia do amor, e não do ódio.
É uma questão civilizacional !
MG 25. Abril. 2009
segunda-feira, 27 de abril de 2009
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