À força de tanto ouvir repetir (jornalistas, comentadores e, até, o Sr. Presidente da República !), vou ter que aprender e interiorizar que, em Portugal, a “direita” é constituída pelo PP e PSD !
Durante as campanhas dos três recentes actos eleitorais e nos comentários subsequentes, foi o que se ouviu de gente de todos os quadrantes, nas suas análises comparativas, focando as subidas e descidas da dita “direita”, em relação à “esquerda”; e ficavam todos muito contentes com a superficialidade das suas conclusões !
Como querem que o País se entenda e tome rumo certo, quando os mais responsáveis pela opinião pública convivem com a confusão, ou mesmo, a fomentam ? Já em tempos manifestei a minha irritação quando se dizia que havia uma “crise da oposição” às políticas dum governo que se intitula “socialista”, e que não tem outro remédio do que ir tomando as medidas efectivas que a “oposição” gostaria de adoptar se, quando poder, não fosse impedida pelos “parceiros de (des)concertação”, e por uma “opinião pública” acicatada por uma “comunicação social” interessada na confusão?
Como se pretende que um partido como o PSD constitua ou apresente uma “alternativa credível”, quando ninguém, dentro e fora sabe o que defende, realmente ?
Não será esta a causa real do tão recentemente proclamado “défice democrático”?
Na minha opinião, o que está a provocar tal “asfixia” é a impossibilidade e o contra-senso de um partido de nome e génese “social democrata” poder ser considerado e assumir um estatuto de partido de direita ! Desde quando a “social democracia”, que esteve na génese do chamado “socialismo democrático” e se integra na “família socialista” da Europa, se pode intitular e ser considerado de direita ? Só numa “democracia de um país das bananas”!
O que se constata, efectivamente, é que o PSD abriga uma maioria “não socialista”, com variadas tendências, algumas com princípios mais próximos das suas raízes ideológicas, outras mais liberais ainda que os “democratas cristãos” genuínos ! Quando convém, aparece a defender as chamadas “políticas de direita”, mas nas horas de espectáculo veste as suas roupagens (as genuínas !) de esquerda ! Quem os entende ? Como se podem entender entre si ? Resulta daí o tal “saco de gatos” de que se vai dando conta !
A Dr.ª Manuela Ferreira Leite não diz nada ! Nem pode: ou mente, ou diz o que não é “politicamente correcto” dizer ! O Sr. Presidente, claro, também não diz ! A “malta” apatetada e encavacada, finge não perceber, e entretém-se,…ironizando !
Coisa semelhante se passa com o partido dito “socialista”, integrando uma maioria que é tão socialista como a minha Avó, que era fina e não ia em cantigas (!), que defende medidas pragmáticas de direita, mas que, também na “hora de verdade” puxa dos seus pergaminhos marxistas, liderado pelo burguês Manuel Alegre ! Ora dão no cravo, ora na ferradura ! Outra salsada !
São estes os dois “grandes partidos” em que se alicerça e constrói a “alternância democrática” neste pobre (em espírito) País !
Já noutra oportunidade referi que considerava que tais incoerências e contradições dos dois maiores partidos portugueses, resultado da “esclarecida pressão” do PREC, estarão na génese da crise política em que vivemos há muitos anos, neste desorientado País. Estes partidos, quando no poder, tentam fazer o que sabem ser imperioso, tendo antes anunciado políticas que sabiam não haver condições para implementar e acabando, por fazer alarde, quando na oposição do que achavam que deveria ser feito, mas não tiveram capacidade para fazer !
Neste triste contexto, nada me surpreendeu e constituiu motivo de esperança constatar que algum eleitorado tradicional do PSD começou, finalmente a compreender e migrou para o PP; nada me surpreendeu e muito me preocupou que, identicamente, parte do eleitorado do PS tenha migrado par o BE ! Só me continua a surpreender que os comentadores, tão entendidos, queiram continuar a fingir que não entendem e a dar roda de burro ao Povo inocente, que se deixa influenciar por eles !
Vislumbrou-se uma oportunidade para corrigir o nosso “pecado original”, quando se formou a AD, que aglutinava a “maioria” declaradamente não socialista; sempre afirmei considerar que o “pseudo-acidente” de Camarate foi, na minha opinião, o facto político mais relevante e determinante do rumo do País, depois do “25 de Abril” . Foi uma oportunidade perdida e que ninguém, até agora, conseguiu retomar. Os recentes resultados eleitorais apontam ou sugerem que o seu ressurgimento poderia ser um caminho a considerar, seriamente. Porém, tal só será possível quando os políticos deixaram de pensar no “poleiro” e privilegiarem os interesses da País. O Dr. Medina Carreira afirmou, antes das eleições, que o caminho seria o de se formar um governo de iniciativa presidencial, que integrasse gente competente, séria e dedicada, independente de filiações ou interesses partidários mesquinhos; porém, tal é inconstitucional !
O que é constitucional é esta “espécie de democracia” de “faz de conta”, com que nos vamos afundando, alegremente !
Entretanto, para distrair e entreter papalvos virão, para “salvar a pátria” as propostas do BE para facilitar e promover a dissolução dos costumes e fragilizar mais o tecido social; o pior será que o PS, para agradar a certo eleitorado e mostrar que é moderno e civilizado, vai vestir as roupagens de esquerda e fingir que está de acordo e acalmar os arruaceiros ! Se tal se confirmar, as consequências sociais poderão ser mais funestas que as decorrentes das “amplas liberdades” do “25 de Abril” !
O preocupante é que, para opor a estes desmandos políticos temos,…nada !
Naquilo a que se chama a “direita conservadora” temos o PP, que não tem “peso” suficiente, e o PSD, destroçado por “tendências e divergências”, que não sabe o que é nem o que quer, e que se ocupa a fazer oposição a si próprio, como se viu !
Sinto-me, verdadeiramente, e cada vez mais “asfixiado” com tanto “défice democrático”!
Seria bom que começamos todos a “ponderar”, efectivamente e a sério nos “males de raiz” desta pobre “espécie de democracia”!
MG 22.10.2009
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
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