domingo, 25 de outubro de 2009

Mudança da hora ! Para quê ?

Mudança da hora ! Para quê ?

Sempre me incomodou esta mudança horária duas vezes por ano !
Afigura-se-me provocar uma alteração brusca, uma descontinuidade no nosso ritmo biológico, em contraposição ao funcionamento normal da Natureza. Certamente que antes desta “invenção” toda a gente vivia, nos seus respectivos lugares, ao ritmo da hora solar; é velho o aforismo relacionando os hábitos saudáveis de vida com o “levantar e deitar com as galinhas”, sendo certo que estas não mudam o seu horário por uma qualquer determinação legal !
Parece que está provado que o incómodo decorrente de tal descontinuidade não é saudável favorecendo, mesmo, quadros depressivos e afectando o rendimento do trabalho durante algum tempo; tal poderia ser aceite como “mal menor”, se e quando “valores mais altos se alevantam” ! Terá sido esse o caso, quando tal prática foi implementada internacionalmente, mas creio que nos tempos actuais tal carece de justificação, mantendo-se apenas por simples inércia e pela tradicional “reacção à mudança”.

Ao que consta, tal prática foi adoptada a partir de 1884, no advento da industrialização e das telecomunicações, por razões de facilitação de contactos comerciais internacionais, para harmonizar os horários dos Países que mantinham entre si uma relação mais frequente, particularmente dentro da Europa mais próxima; nos tempos actuais da globalização (em que os grandes negócios se fazem com os Países mais variados e longínquos) e das novas tecnologias de comunicação proporcionadas pela informática (em que se está, permanentemente, “on line” com todo o Mundo, seja qual for a hora e o sítio) tal harmonização tornou-se impossível e inútil.
Quando o sistema foi lançado, foi tomado como referencia o “meridiano de Greenwich”, certamente pela importância da Inglaterra no concerto das Nações, à época; mas isso é irrelevante e pacífico: a “referência mundial” tem que estar em qualquer sítio, e não vejo justificação para mudar; seria uma descortesia injustificada para os pioneiros !

Considero que, nos tempos actuais, há duas questões independentes que poderiam ser reponderadas:
- a definição das “fronteiras horárias” (com base nos “fusos”), a partir de um
“meridiano de referência” (que poderia ser o actual, ou não !);
- a manutenção da mudança de hora Verão/Inverno.

Quanto à primeira, e tendo em conta que parece carecer de justificação, na actualidade, uma preocupação de harmonização (e considerando que os fusos não podem deixar de ser 24 !), parece não fazer sentido que em cada lugar a “hora oficial” se afaste muito da “hora solar”. Sendo que um fuso corresponde a 1.666,(6) Km (no Equador, e por definição de “metro-padrão”; na nossa latitude a cerca de 1.000 Km), e para se ter uma ideia, um País como a Espanha abrange um fuso; se Madrid adoptasse a “hora solar”, em Barcelona a vida começaria ½ hora mais tarde do que a “sua hora solar”, e a Corunha ½ hora mais cedo. Não seria grave ! Seria inevitável que os “hábitos horários” (horas de levantar e deitar, e de refeições) fossem ligeiramente diferentes nas duas costas. O mesmo se passará noutros Países com dimensão (em longitude) que abranja mais do que um fuso.
Não creio que houvesse algum inconveniente em que cada País (ou “regiões” correspondentes a um fuso) adoptasse o seu “meridiano de referência”, para proporcionar uma harmonização interna; as tecnologias actuais propiciam a adopção de soluções expeditas para o viajante: a questão já se põe com o sistema actual ! A definição de tal meridiano poderá ajustar-se de forma a atender às “fronteiras nacionais” (ou regionais): margens de cem ou duzentos Km, para um lado ou outro, não introduziriam, aparentemente, perturbação relevante.

Relevante parece ser a perturbação provocada pela questão da mudança de horário !
Considerando, no caso Português, que:

- se constata que no “horário de Verão” a “hora oficial” está adiantada cerca de duas horas em
relação à “hora solar” (o Sol atinge o ponto mais alto da sua “trajectória aparente”, indicando o
Sul e a que deveria corresponder às 12 horas, cerca das 14 horas oficiais !);

- de que decorre que nos dias mais longos há luminosidade até cerca das 22 horas (o que não é
normal, nem saudável !);

- se verifica que (à longitude do Porto) NascºSol Pôr Sol Duração
no “solstício de Verão” – hora oficial….…………. 6.01 … 21.09 … 15.08 h
hora solar …(difª 2 h).… 4.01 … 19.09

no “solstício de Inverno” – hora oficial……………. 7.57 … 17.09 …. 9.12 h
hora solar …(dif.ª 1 h)… 6.57 … 16.09

tal permite concluir que a adopção da “hora solar” (real e de harmonia com a Natureza !) ao longo do ano, sem alterações, proporcionando a integração de horários normais de trabalho (entre as 8 h e as 19 h) no Verão e propicia condições mais favoráveis (mesmo para a deslocação de crianças para a escola: uma hora mais tarde, com melhores condições de luminosidade !) no Inverno.
O argumento de que o actual “horário de Verão” favorece o turismo não colhe: tudo é uma questão de hábito e os turistas fazem exactamente os mesmos “programas”, a horas diferentes; o dia, é o mesmo ! Em vez de passear às 22 h (oficiais) fazem-no, exactamente nas mesma condições, às 20 h (reais)!
Qual a vantagem de cá se começar a vida (a maioria) às 9 h (oficiais) se, na realidade, são 7 h (hora solar) ? É apenas uma questão de convenção e sugestão ! No Brasil, onde anoitece pelas 18 h (e não são mais infelizes por isso !), tudo anda na praia a fazer exercício às 6 h ! Não será que eles é que estão certos ?
Porque havemos de acertar a nossa hora pela Inglaterra ? Não seria mais lógico estar sincronizados com Espanha ? Acharia natural, se lá se adoptasse a hora solar; ficaríamos em condições iguais às da Galiza. Mas, não me parece haver algum impedimento a que definíssemos o nosso próprio meridiano; ficaríamos na situação ideal e, talvez a Galiza alinhasse por nós !

Há quem argumente, ainda, que a mudança de hora favorece a poupança de energia. Parece-me evidente que para se atingir tal objectivo o conveniente será acompanhar o ritmo da Natureza e adaptar os hábitos em conformidade ! A análise do balanço energético resultará de avaliar a incidência do consumo da “população activa”, ao longo do dia, afigurando-se-me, pelos dados expostos que a adopção do “horário solar” será o mais adequado.
Afinal, com a mudança de hoje, anoitecendo ainda mais cedo, parece que só se vai agravar mais a factura energética !

Parecendo poder concluir que, nos tempos actuais, as mudanças de horário, sendo contraproducentes e inconvenientes, são já injustificadas, consideraria interessante que “quem de direito” (o Observatório Astronómico Nacional, e entidades equivalentes a nível internacional) se dispusesse a vencer a rotina, equacionando a conveniência de redefinir as “fronteiras horárias” de cada País e, consequentemente, a adopção para cada um do respectivo “horário solar” e constante ao longo do ano, a favor do bem-estar físico e mental das suas gentes e, afinal, do aumento da sua produtividade.
Preparemo-nos para gozar, desta vez e nesta noite de chuva, uma horinha de brinde !

MG 24.10.2009

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