CAIM, E … ABEL !!
Esta reflexão não resulta directamente da polémica gerada pelo último livro de Saramago, embora a mesma venha dar alguma acuidade mais ao assunto.
De todo o conjunto de histórias que a Bíblia contém, com toda a carga simbólica das suas mensagens (e que Saramago não consegue entender !), ressalta esta chamada de atenção para o possível conflito entre irmãos, simbolicamente personalizados nas figuras de Abel e Caim (se fossem figuras reais, históricas, a descendência teria ficado por aí !), filhos de um Adão e Eva, que simbolizam, por sua vez, uma primeira geração desta frágil “humanidade” itinerante, mas já com os “dons” únicos que os faz ser “à semelhança de Deus” !
Este episódio retrata, pois, e alerta para uma questão essencial da sociedade humana: a qualidade das relações entre irmãos. È essa a função de toda a mensagem Bíblica: alertar para as nossas fragilidades. É mais uma “história deplorável”, no dizer de Saramago ! Mas, a nossa humanidade,… é mesmo assim !
Ocorreu-me esta análise ao deparar com a casualidade de ter recorrido à colaboração de uma empresa “prestadora de serviços”, cujos sócios são dois irmãos que, além de sócios, também trabalham em conjunto. Fiquei um pouco surpreendido ! Raramente, no decorrer duma vida já algo longa, se me tinha deparado caso idêntico ! Interpelei-os, procurando analisar os seus antecedentes familiares, tendo-me parecido poder concluir que tal resultara do mérito do ambiente familiar criado pelos seus Pais.
De facto, a primeira situação de “relação social” com que a maioria de nós é confrontada (à semelhança, aliás, com o que acontece com as restantes espécies animais !) é a de se ser envolvido numa primeira situação de eventual “conflito de interesses”, numa competição pelos afectos, se não pela sobrevivência. Perante tal realidade há, como em tudo, dois caminhos que resultam de duas opções possíveis: a da harmonia, da amizade e solidariedade, que se pode manifestar numa atitude de conivência e cumplicidade, ou a de desarmonia e egoísmo, podendo levar à disputa, à confrontação, à prepotência, do “salve-se quem puder”! Como em tudo, é sempre uma questão de atitude e cultura, ou seja de valores e princípios.
Afigura-se-me claro que, face à tentação espontânea e primária da defesa egoísta dos interesses pessoais, personalizada em Caim, e que conduz às lutas fratricidas (profeticamente espelhadas neste episódio Bíblico e de que a história da humanidade está recheada, o que sempre me chocou profundamente), só uma actuação atenta e esclarecida dos Pais pode fazer valer “valores mais altos” e inverter tal impulso. Admito que os “primeiros Pais” não estivessem muito sensibilizados para o seu papel ! E, creio mesmo que, ainda hoje, pouca gente o estará . Todos conhecemos, infelizmente, casos de irmãos separados e hostilizados por tricas mesquinhas, de vária ordem, bem como de irmãos que são “unha com carne”.
Creio que valerá a pena analisar a sua história familiar e perceber a importância do ambiente que lhes foi proporcionado e o papel decisivo duma actuação inteligente dos Pais, numa estratégia de educação que tenha incutido valores que induzam às opções mais desejáveis. Julgo ser da maior importância que todos os Pais tenham consciência da importância determinante da sua actuação e do seu exemplo, agindo de forma coerente e consequente. O bom ambiente familiar, não sendo determinante, é essencial.
Como todos os “amores”, também o fraternal é, no entanto, susceptível de perversidades, podendo pecar por excesso ou exagero, havendo casos em que o egoísmo individual migra para um “egoísmo de grupo”, gerando-se uma comunidade fechada sobre si, constituindo-se uma espécie de “máfia”! Há casos conhecidos.
Mas, voltando ao tema, considero ser, assim, um espectáculo sempre edificante observar o sucesso, quando o há, desta primeira experiencia de vida em comunidade. Este será um primeiro passo para uma educação e sensibilização para a cidadania e para as questões sociais que a todos deviam preocupar. Que civismo esperar de pessoas que nem as relações entre irmãos conseguem gerir, deixando sobrepor-se os seus interesses individualistas e egoístas ? Não se espere que seja possível construir na sociedade um clima de paz e justiça, se não houver uma sólida estrutura familiar.
Julgo, portanto, ser da maior importância e premência alertar os Pais para que estejam conscientes da mais esta sua responsabilidade para que, bem atentos, actuem de forma esclarecida.
Felicito todos os Pais que foram capazes de gerar uma comunidade de irmãos unidos, amigos e solidários: aí, nessa comunidade, está o “Amor de Deus”, mesmo quando não conscientes desse facto.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
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